sábado, 16 de julho de 2016

Entardecer



A brisa da tarde cessou
deu lugar ao cálido entardecer
tempo de andorinhas tracejando o céu
farrapos da infância pairando dispersos

a mente, sem se anunciar, observa
nada busca
governa as palavras como pode


Daniel D. Dias

domingo, 15 de maio de 2016

Temer (e) o preço das desigualdades


A clássica técnica policial de investigar a autoria dum crime começando por determinar, antes de mais, quem mais lucra com ele, é exemplar no caso do Brasil e, duma forma geral, em toda a América Latina e países Caribenhos. Que diabo, não são demasiadas coincidências e todas a apontar para o mesmo lado? Acho que não é preciso fazer um grande esforço intelectual para perceber quem lucra com a eventual derrocada dos governos que levaram ou levam a efeito políticas progressistas nos últimos quinze/ vinte anos. Quem lucra com a descida dos preços do petróleo, quem ganha com a desregulação da economia e das instituições?
O regresso às ”virtudes” do passado sempre foi uma constante quando as classes poderosas se sentem ameaçadas nos seus privilégios. Os promotores destas ideias, houve tempo, em que o tempo estava invariavelmente do seu lado. Mas creio que, atualmente, as coisas não são bem assim. Os retrocessos programados exigem hoje em dia, gestões e manutenções dispendiosas, impossíveis de suportar por muito tempo. E as lealdades entre cavalheiros de indústria também já conheceram melhores dias.
Estes movimentos fascistas ou fascizantes, que se vão implementando um pouco por todo o lado - ostensiva ou sub-repticiamente -, estão por isso condenados ao fracasso no curto ou no médio prazo. Creio que, na essência da economia mundial, há algo novo ainda não assumido, mas cada vez mais evidente: Sai cada vez mais caro gerar ou manter desigualdades do que procurar acabar com elas.
Talvez a praxis económica ainda esteja apegada a inércias do passado. As mudanças - como se sabe – não são lineares, pesam muito e são difíceis. Mas a caminhada na direção da igualdade social – estou convicto - é irreversível e imparável. Temer e o que ele representa é sem dúvida de temer. Mas Dilma, e o que ela representa, talvez ainda tenham uma palavra a dizer.
Daniel D. Dias

domingo, 8 de maio de 2016

A ameaça fascista



O fascismo é a expressão mais extrema e acabada da luta de classes. Este fenómeno está sempre latente, em menor ou menor grau, nas sociedade divididas por interesses antagónicos como é o caso de todas as conhecemos. Infelizmente décadas de progresso tecnológico e científico não lograram implantar os dois factores  capazes de travar esta doença social: a distribuição mais equitativa da riqueza gerada na sociedade, (facto que se manifesta vulgarmente na expansão da chamada classe média – as sociedades mais evoluídas têm uma classe média esmagadoramente maioritária), e a universalidade da educação pública de qualidade. Estes dois factores estão interligados e são interdependentes. O pecado original da nossa sociedade - que não se cansa de apelar à necessidade de  sermos mais competitivos – é não cuidar de assegurar - À PARTIDA - as condições básicas para concretizar esse potencial. Sem “paz, pão, educação, habitação” e  estabilidade garantidos, pelo menos ATÉ À MAIORIDADE A TODOS OS CIDADÃOS – e não apenas a alguns -, toda a competividade exibida não passa dum jogo viciado. Os mais aptos que acabam por ter sucesso, ou são fenómenos da natureza, ou tiveram algum tipo de vantagens que lhes permitiu ir mais longe. Mas a sociedade no seu todo, perde e perde muito.

O fascismo, nas suas múltiplas manifestações, (não se espere que os fascistas do seculo XXI se apresentem com indumentárias e discursos mussolinianos), resulta sempre dum excesso de pressão no equilíbrio social. É comum o fenómeno começar por uma reação excessiva das classes privilegiadas que sentem ameaçados os seus privilégios: Ou porque se lhes afigura que as classes subalternas lhe parecem pôr em causa os seus interesses, ou porque temem a ruina resultante duma concorrência descontrolada.  Mas a receita completa envolve os “media” (que elas próprias controlam)  e outras organizações de massas – certos partidos, organizações “religiosas” - que espalham o pânico e logram mesmo associar a este descontentamento – muitas vezes artificialmente empolado e induzido – as classes atingidas pela penúria: desempregados, gente forçada à marginalidade, revoltados e descontentes.

É porém  importante  que se sublinhe que o fascismo só é bem sucedido quando a ignorância política é dominante, e o povo – na sua grande massa – se apresenta desmobilizado, ou, ainda pior, dividido. É bom não esquecer que hoje em dia prolifera uma indústria do entretenimento e uma máquina de moldar opiniões, baseada na diversão e nos “media”…

A III Guerra Mundial – como (bem) dizia o Papa Francisco, há muito está em marcha. Ela ocorre em muitos pontos do mundo - exatamente neste momento -, mas parece que só uma pequena parte da humanidade entende, e se preocupa com o que se está a passar. Esta apatia ou mesmo indiferença é muito preocupante. Parece que ninguém percebe as ligações que existem entre determinados interesses – e políticas - ocidentais e as terríveis guerras que estão a ser incrementadas no Médio Oriente, na África e em certas zonas da Europa. O Estado Islâmico é apenas uma manifestação desse fascismo que avança… e que tem aliados. Alguns que até dizem combate-lo…

Mas nas Américas o fascismo também ameaça. No Sul – sob pretextos legalistas – uma a uma todas as democracias progressistas, as primeiras bem sucedidas em 500 anos! - estão sob séria ameaça. O desemprego, a miséria e a violência já são visíveis no horizonte. E o grande vizinho do norte, agora em maré de eleições – mostra uma vez mais o seu perfil tenebroso.

Que fazer?  Creio, antes de mais, que é preciso tomar consciência do que se está a passar. É preciso passar a observar com muita atenção e criticamente, toda a informação que vai chegando. Construindo uma visão clara, cada um de nós pode ajudar a esclarecer terceiras pessoas, especialmente aquelas que perdem muito com este clima de retrocesso. É também importante não reagir apenas com estados de ânimo. As emoções podem ser reações plenamente justificadas mas toldam frequentemente os raciocínio serenos, os que geram as decisões mais acertadas.

As ameaças são muitas mas creio que as forças da liberdade e do progresso acabarão por se tornar dominantes. No entanto só uma maioria de consciências cívicas, clarividentes e convictas,  poderá obviar a muito sofrimento inútil.   Faço votos para que as pessoas de boa vontade, de espírito livre, saudável e abnegado, tenham ânimo que baste para travar esta luta.


Daniel D. Dias


domingo, 1 de maio de 2016

Mãe

Mãe
é outra coisa
é outro estado da natureza

Mãe é mais que mulher
é mais que gente
é o princípio e o fim de tudo
é um perfume indefinido
uma humidade refrescante
que se cola ao corpo
que trazemos sob a pele
por toda a vida
mesmo sem darmos por isso

Secamos, envelhecemos
e essa água é a mãe que se vai
que se volatiza,
talvez no seu último esforço,
no seu último embalo
dum repouso mais profundo



Como sinto sede dessa tua água, mãe!



Daniel D. Dias

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Coisas do meu vizinho – 3 Eleições, esquerda, ideologia e bom senso



O meu vizinho afirma com frequência que “a esquerda política não é o que mostra ser mas o que de facto é”.

Os nossos encontros fugazes nem sempre permitem aprofundar estas questões. Mas agora com as presidenciais, surgiu uma oportunidade para lhe perguntar o que queria dizer com essa estranha afirmação.

- Não entende? – Respondeu-me aparentemente surpreendido. Então não vê que esquerda e direita são coisas diferentes dependendo do ponto de vista? Os nomes pouco significam e podem ser apenas uma camuflagem. Veja o caso do partido NAZI na Alemanha de Hitler. A sigla completa, NSDAP, em alemão, (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) é composta pelas palavras “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”. Conhece alguma coisa que pareça mais de esquerda? “Socialista e dos trabalhadores” e no entanto hoje ninguém duvida que essa organização não só era de direita mas de “extrema direita”, anti trabalhadores e anti socialista. Outro exemplo mais recente: os "Khmers vermelhos" ( militantes do Partido Comunista do Camboja que estabeleceu neste país asiático o chamado “Kampuchea Democrático” - Camboja Democrático). Eram “vermelhos”, democráticos, comunistas (ideologia que se identifica sempre com valores de esquerda), e no entanto perseguiram e mataram milhões de pessoas, em nome do povo… E há muitos outros exemplos.

Pausa. Olhou-me bem nos olhos talvez para ver se o assunto me interessava. E prosseguiu, num claro esforço pedagógico.
-Vamos lá a ver: Todos os partidos, organizações ou personalidades que chegam ao poder, fazem-no utilizando argumentos de esquerda, ou pelo menos, tentando agradar ao povo, que, por natureza, é a própria essência da esquerda. Por isso, para mim, é de esquerda o que é DE FACTO feito com intenção de favorecer o bem do povo – entenda-se, da grande maioria do povo e, sobretudo, daquela parte que mais precisa. Os nomes, as atitudes, as declarações, podem querer dizer alguma coisa, ou muito pouco, é isso que importa sempre ter presente. Claro, há o histórico, de indícios, de práticas, que, bem analisado, raramente engana. Mas esse histórico pode ser apagado, manipulado, deturpado, disfarçado, de forma a parecer outra coisa ou até o seu contrário. Estamos no domínio da ideologia, que engloba a cultura dominante, os hábitos, a arte, a educação e a comunicação. Entende?

Acenei que sim.

- O pobre vive a vida de pobre mas transporta na cabeça a mentalidade da classe dominante, dos privilegiados. Por isso os pobres – mesmo em democracia – elegem quase sempre os seus inimigos de classe. As organizações de esquerda lidam mal com esta realidade. Estão excessivamente preocupadas com lideranças, comunicam mal, são pouco práticas nas suas ações, preocupam-se mais com teorias do que com factos. Depois, não se unem, acenam com miragens e nem sempre cumprem o que prometem. Muitos ficam admirados com este fenómeno (do excesso de abstenção, dos pobres elegerem os ricos, do povo colocar a direita no poder) mas tudo isto, afinal, nada tem a ver com a “estupidez” do povo. Quanto muito tem a ver com a sua ignorância. Sobretudo com a sua ignorância política. Mas no cômputo final a verdade resume-se a isto: quem domina a comunicação e a ideologia dominante – que está presente em tudo: nas distrações, na cultura, nas tradições, nos filmes, nas telenovelas, no futebol – domina tudo… Quem tem dinheiro tem vantagem e a esquerda está em desvantagem porque, habitualmente, abjura, excomunga as técnicas de ganhar dinheiro, em vez de as dominar, de tirar partido delas...

Aqui o meu vizinho fez uma nova pausa, talvez para ver como estava a reagir. Como permaneci impassivo, prosseguiu.

- Percebe agora porque Marcelo foi eleito? – Perguntou com uma ponta de acinte.

Estava atordoado com o seu discurso compacto e assenti sem grande convicção. Pensava noutras razões: no abstencionismo, na falta de argumentos da direita (mas que mesmo assim ganhava…), e também nas divisões e da má campanha da esquerda… Mas o meu vizinho avançava noutra direção.

- Sabe: as pessoas receiam a mudança. Preferem ter uma vida medíocre a mudar. Sabe-se lá se a mudança não será ainda para pior… É o que sentem, é uma reação ancestral. Por isso “o sistema”, o que consideram “normal”, é que domina. As pessoas só mudam em duas circunstâncias: em desespero de causa – quando já não têm nada a perder e são impelidos a lutar (ou a fugir – veja o caso dos refugiados), ou por rutura cultural com o sistema vigente. Se as pessoas perderem o medo de pensar, se deixarem de se refugiar no devaneio, na fuga à realidade com diversões de todos os tipos, se se divertirem, a pensar e com outras diversões que são aquelas que se centram na realidade, que tiram partido dela, que procuram conhecê-la, então podem mudar e escolher outro modo de vida, mais humano, mais sustentável, mais seguro. Sem esforço de maior e até sendo mais felizes.

Pareceu-me tudo isso uma enorme miragem.

- Então não há esperança, não é? - Balbuciei, sinceramente desanimado.

- Há, pois. Pelo menos alguma. Quando há mais gente a divertir-se, correndo - a pé, de bicicleta, de para-pente, de skate –, mais gente interessada em conhecer o mundo real, divertindo-se a estudar, a compreender a realidade, que lida melhor com a liberdade, com a simplicidade, que não se interessa apenas em acumular riquezas, que gosta daquilo que faz e trabalha com gosto… Há esperança, pois. O bom senso demora mas quase sempre chega.

E, depois duma curta pausa, rematou a conversa com esta intranquilizadora frase:

- O problema, nesta altura, é saber se o bom senso chegará a tempo…

Daniel D. Dias

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Presidenciais: “Requiem” por um candidato inexistente



Dos dez candidatos à presidência da República há um que, garantidamente, não receberá o meu voto. Porém não me ouvirão, até ao dia das eleições, pronunciar o seu nome, seja para dizer mal dele, seja para apontar as suas incongruências, seja para lastimar a natureza e o significado da sua popularidade. Porque sei que falar no seu nome é promovê-lo e eu não quero promovê-lo. A melhor forma de liquidar uma má ideia, um mau personagem, é remetê-los ao esquecimento. Esse candidato para mim não existe, ponto. É um candidato não candidato. É o número zero entre dez candidatos que passam assim a ser apenas nove. De quem estava eu a falar? Não sei, nem me interessa saber. E nem se deitem a adivinhar quem era porque não era ninguém, ponto. Entenderam? Aqui fica então o meu “requiem” definitivo para esse candidato! Paz à sua desalma. Pim!

Daniel D. Dias

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Algum dia

Algum dia

uma calidez terna
dessas de génese ignota
se insinuou em mim sem que desse por ela
e expandiu-se
pela pele, pelos braços, por todo o corpo
como uma suave febre benfazeja

e essa devassa mansa
impulsiva
ao menos por um momento
desvaneceu todo o fervilhar das ideias
das ilusões
e avassalou todos os meus desejos…
o meu coração pulsou então como um remoto quasar:
era o universo que me respirava

ah, percebi:
há mais vida para lá de mim
essa calidez subtil
esse impulso irracional
é como uma raiz que procura mais vida à sua volta
que busca um ponto para fixar-se e reexistir
e esse ponto
posso ser eu ou podes ser tu
ou pode ser a minha mão na tua mão
ou ainda
os nossos passos trilhando juntos o tortuoso caminho
deste ciclo da eternidade


Daniel D. Dias