sábado, 3 de agosto de 2013

Lição de Mandela


As sondagens “valem o que valem” e sem dúvida em alguns casos podem ser questionadas na sua oportunidade ou no seu rigor científico. Ainda assim é inegável que expressam a realidade que se vive e que a partir delas se pode prever o comportamento das pessoas com um certo grau de aproximação. Não é por acaso que a publicidade recorre sistematicamente a elas. Se não tivessem alguma valia certamente que há muito teriam sido abandonadas.

A situação não é diferente nas suas aplicações sociológicas e políticas. Admito que possam ser utilizadas como instrumento de manipulação, mas a experiência mostra que, no seu conjunto, as sondagens refletem aproximadamente as tendências da opinião pública. E é a partir deste pressuposto que faço esta reflexão.

A recente sondagem que apresenta o PS a 3 pontos do PSD é alarmante. Alarmante, bem entendido, para aquelas pessoas que se preocupam com o caminho desastroso que o país persegue, mas provavelmente reconfortante para aquelas que gostam de ”brincar aos pobrezinhos”, estimulante para as que aproveitam a “crise”, para enriquecer, para projetar aventuras políticas, prometedora para os querem ganhar o paraíso salvando almas sem grande investimento.

“Portugal parece que perdeu as sinapses. (…) Os portugueses estão com medo. Não protestam, não refilam, não contestam nem desfilam, como dizia uma canção do Godinho. Ou, numa versão mais séria e substantiva: não leem, não perguntam, não põem em causa, não exigem. Somos um país que tem um tiranete em cada cidadão. Um génio em cada BI. Um iluminado em cada NIF. Não temos cooperativas nem sabemos associar-nos. Quando o fazemos, fazemos mal. Temos campos com uma oliveira aqui, um sobreiro acolá, um pomar que gasta água e está mal tratado. E isso é-nos e parece-nos normal. O individualismo e o medo será a nossa desgraça. Porque Grécia, Itália e Espanha, com menos medo do que nós, estão em queda livre.” (cito Telmo Vaz Pereira)

 A situação é tanto mais alarmante quando se constata que em Portugal  ser de direita – não direita dos costumes, mas direita das negociatas, das trafulhices, do oportunismo - , não tem risco nem exige esforço, porque a esquerda existente não lhe faz frente adequada, persiste lidar com um povo idealizado, mitificado, um povo que em cada eleição perdida a favor da direita, diz ter-se  deixado enganar... A esquerda que temos, considera-se objetiva, realista, mas formula os seus projetos e estratégias na base dum povo idealizado, ignorando o quotidiano processo de liquidificação mental a que está submetido, operado por  Júlias, Gouchas, Fátimas, revistas Caras, Correios da Manhã, novelas mistificadoras,  e muitos, muitos,  Doutores, comentadores, conselheiros, etc. Mas, pior ainda, ignorando que o povo abriga, a par da sua natural nobreza de carater e do seu grande potencial humano, hábitos nocivos sustentados pela tradição, pela insegurança e pelo medo, como o individualismo, o egoísmo, a inveja…

As pessoas são o que são e não adianta queixarmo-nos dos seus defeitos, da sua ignorância, ou, pelo contrário, não reconhecê-los, ignorar a sua influência. Como dizia alguém “temos de ganhar a guerra com os soldados que temos”. Há que perceber que não se passa duma situação de imperfeição para uma situação ideal, por decreto ou pela força. É preciso dar um sinal de mudança e, simplesmente, começar a mudar. Enquanto a esquerda persistir em recriminar-se reciprocamente e de ser incapaz de se unir à volta questões essenciais, de programas políticos mínimos por exemplo, as perspetivas de derrotar esta direita prevaricadora e caricata que continua a assolar o país, continuarão a gorar-se, como, infelizmente, parecem apontar as recentes sondagens da Marktest…

Dirão: As sondagens pouco valem. São instrumentos da direita. Mas deviam ser entendidas como um aviso. Os tempos há muito que são propícios a políticas progressistas, à implantação de modelos económicos mais avançados que o atual capitalismo absurdamente especulativo, e, no entanto, as forças de direita que historicamente têm os dias contados, renascem, revigoram, voltando a mostrar os dentes, arrogantemente. Obviamente a razão fundamental está na falta de unidade da esquerda, disso não há dúvida. A história comprova-o.

Parece que a lição de Mandela, entre nós, ainda não foi aprendida. Mandela não hesitou em aprender Afrikaner – a língua do inimigo – para poder negociar com ele, para poder superá-lo. Mas entre nós nem a linguagem dos amigos se faz um esforço por aprender.

Daniel D. Dias

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