Tenho ideia que a
religiosidade é algo intrínseco do ser humano. Quando nos emocionamos
espontaneamente, sem necessidade de recorrer a palavras ou a ideias - com um
belo pôr do sol ou com o sorriso duma criança, quando nos extasiamos com a
grandiosidade do universo ou com a singularidade da vida -, acho que, nesse
preciso momento, estamos em sintonia com o cosmos, i.e., vivenciamos uma
atitude religiosa. Este tipo de sentimentos são muito comuns e enriquecedores e
provavelmente são eles que estão na génese de todas as religiões e cultos.
A atitude
contemplativa, a atenção incondicional e completa ao que nos rodeia, a
capacidade de sentir empatia pelos outros sem esperar nada em troca - nem
sequer pensar, sem ponta de egoísmo -, é algo que torna as pessoas mais humanas
e felizes, e talvez tudo isso esteja implantado na nossa natureza mais
profunda. Terá sido esta a razão que levou
a humanidade, desde cedo, a criar fórmulas e eleger locais para cultivar esta religiosidade
natural.
Mas o que geralmente fazemos
é substituir essa atenção incondicional – que bem pode ser sinónima de
meditação, contemplação ou oração – por rituais e liturgias. Os locais de
cultos são utilizados, não como locais veneração do universo, ou do cosmos, mas
como locais de pedincha. Pedincha de segurança, pedincha de “amor”, pedincha de
perdão…
Não faço parte de
nenhuma igreja nem de nenhum culto. Mas se fosse responsável por alguma igreja
acho que desencorajaria a entrada a todos aqueles que lá fossem pedir seja o
que for. As aspirações humanas, de justiça, de paz, as nossas necessidades de
segurança e alimento, devem ser tratadas no âmbito da sociedade, na prática
política. Os locais de culto são apropriados para exaltar o universo, louvar o
facto de estarmos vivos. É na vida social, na interação com os outros, através
do trabalho e da cooperação, na cultura, na troca de conhecimentos, nas ágoras
a que pertencemos, que devemos resolver tudo o mais.
Quando assisto à
tendência de transformar as instituições públicas em locais de culto, povoados
por vacas sagradas, e os locais de culto transformados em locais de intervenção
política, administrado por gestores paramentados, fico preocupado.
Daniel D. Dias
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