terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sapos



A situação mundial mostra que todas as estratégias extremas conduzem ao seu oposto. Esta situação é redundante e ocorreu em todas as épocas, especialmente nos períodos de crise, e pode ser testemunhada nos mais diversos quadrantes do mundo atual.

É assim que a incapacidade (ou impossibilidade) para coabitar com Mursi, no Egipto, é pretexto para fazer ressurgir os militares, e com eles a direita tradicional, laica quando lhe convém, aliada de extremistas quando lhe dá jeito. Mas a intransigência da Irmandade Muçulmana em não coabitar com o laicismo, pode constituir a sua liquidação enquanto partido moderado de cariz religioso e reforçar o extremismo que tem latente. Um imbróglio perigoso.

É também por resultado da intransigência, da obstinação em derrubar a todo custo uma das poucas lideranças laicas da região, que aos poucos Bashar al-Assad consegue congregar à sua volta a população civil e “segura” o seu exército, o que não deixa de constituir uma derrota para a ultra reacionária Arábia Saudita e dos seus aliados, em especial os EUA, que não se incomodam com a total ausência de democracia neste país, enquanto a reclamam para a Síria, aonde pelo menos é possível professar qualquer outra região que não o islamismo, ao contrário do que sucede na Arábia Saudita onde só o Islão é permitido.  E uma derrota também para o estranho “socialista” Hollande que declara que "a França e a Arábia Saudita têm análises e posições convergentes" no que respeita à “necessidade” de derrubar Assad -  mas não só -, mesmo que para o efeito seja necessário armar a Al Qaeda… que combate afanosamente no Mali.
 
Na América Latina, os extremos atraem-se, e, se não houver a habilidade para conciliar interesses antagónicos das diversas classes - alguns deles não tão antagónicos quanto podem parecer à primeira vista -, os movimentos revolucionários podem ser minados de duas formas: por um lado, pelo crescimento duma camada de oportunistas que exploram as benevolências e ingenuidades revolucionárias criando brechas nas camadas mais pobres beneficiárias das reformas. Por outro, pelo exploração dos receios das chamadas classes médias, território no qual se abrigam e disfarçam os grandes interesses da direita (financeira e aliada das corporações multinacionais). Os arautos do retrocesso que, por inércia ideológica ou intencionalidade, permanecem nos “media” – cada vez mais influentes entre as multidões – exploram as mais pequenas contradições ou incidentes e camuflam ou baralham as grandes questões que requerem raciocínio arguto, incompatível com a evasão sistemática…


É o que parece estar a acontecer na Argentina onde a oposição ganha terreno nas principais regiões, ameaçando a liderança de Kirchner. O curioso - ou talvez não -, é que os principais adversários partem de setores próximos do kirchnerismo ou são dissidentes muito chegados a Kirchner. No Brasil a direita clássica, a poucos meses das eleições presidenciais, cavalga discretamente a onda de descontentamento, abrindo brechas na governação progressista, tirando partido das suas contradições, das suas fragilidades ideológicas, não hesitando em assumir valores caros à esquerda ou aos movimentos cristãos. Na Venezuela, a oposição procura ganhar a iniciativa imitando a agitação social do Brasil que contesta a corrupção. Os chavistas parecem estar mais argutos e marcam manifestações para o mesmo dia e com o mesmo móbil, mas, deviam ter sido eles a ter a iniciativa, deviam ter percebido que Caprilles e tudo o que se abriga à sua sombra, iria avançar por aí. Meia vitória de Maduro...

E podiam multiplicar-se os exemplos que estão em evidência em todos os continentes e pontos do globo. Claro está, Portugal não fica de fora. À esquerda e à direita as clivagens estão a ser exploradas numa perspetiva de ganhar uma quota maior de poder, para já, no próximo sufrágio, em setembro. Mas enquanto a direita se aglutina, em alguns casos assumindo um discurso de “esquerda”, a esquerda dispersa as suas energias acentuando as suas divergências, muitas delas puramente retóricas.

A situação atual é, uma vez mais – e desta vez mais dramaticamente -, escolher entre o mau e o menos mau, ou o abstencionismo, mais ou menos niilista, que vai crescendo entre nós. Sem dúvida que entre certos partidos, mais pelas suas lideranças do que pela sua base eleitoral, que “venha o diabo e escolha”… Mas o que importa são os resultados. As divergências à esquerda darão à direita, seguramente, uma vitória, mesmo que relativa. Para a direita, nas circunstâncias atuais, até um segundo lugar pode ser considerado uma vitória…


É pois altura de em pôr em prática a famosa política de alianças que todos os partidos fazem gáudio de possuir a melhor. O objetivo deve ser a convergência que garanta o sucesso do partido com mais condições de ganhar, independentemente das lideranças que existirem. Isto significa, bem entendido, uma grande capacidade, de assumir quando necessário uma subalternidade participativa mas também de engolir sapos…

É preciso entender: De líderes de que não se gosta, com maior ou menor dificuldade, o povo, mais tarde ou mais cedo, ver-se-á livre. Mas de tendências políticas, isso é sempre mais difícil  de lograr – como mostra a experiência recente -, uma vez postas em marcha, ou reforçadas.


Opções difíceis que os portugueses têm pela frente. Exigem sapiência, paciência e visão de futuro, mas que não aconselham as tais estratégias extremas, que tendem a reforçar o oposto do que preconizam. Quanto a sapos, que eu saiba, não há memória de que alguém tenha morrido com a sua ingestão. E alguns sapos engolidos foram bem maiores dos que agora andam por aí…

Daniel D. Dias

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