Todos os seres humanos têm apegos naturais aos
quais não podem fugir. Necessidades fisiológicas, como a fome e o sexo, ou
psicológicas, como a segurança e o afeto, são exemplos universais. Estas
necessidades condicionam quase absolutamente a vida de todos nós, todavia há
uma diferença muito grande entre aqueles que para satisfazê-las se dispõem a
“ajustar” as ideias que defendem aos seus interesses, e aqueles que são capazes
de sacrificar os seus interesses às ideias que defendem.
Acho curioso que os que subordinam as ideias
aos seus interesses raramente são “esquisitos” com as ideias que perfilham em
cada situação concreta. Podemos observar este fenómeno ao longo de toda a
história. Os chamados conservadores – na prática os defensores de privilégios –
quando a situação política lhes parece desfavorável, envergam as vestes do
poder que se instala e começam logo a tirar partido dele. A forma que encontram
para minar esse novo poder é aderir a ele e, paulatinamente, sabotá-lo. Quando
esse poder estiver suficiente enfraquecido, voltam às antigas vestes sem
qualquer hesitação.
Como é diferente o comportamento dos que só
lhes interessa defender os seus privilégios dos que se batem por ideias
progressistas e de justiça social!
Os primeiros geralmente ajustam-se a cada
momento. Aliam-se aos que com eles têm menos divergências e raramente fazem
reparo nas suas diferenças ideológicas. Não perdem tempo com coisas menores
como essa coisa de “ideologias”. Estão objetivados nos seus interesses e as
ideias que professam são modeladas em função das suas necessidades e qualquer
ideia pode servir se não puser em causa o essencial desses interesses. Alguém
já viu algum poder da direita, algum especulador financeiro, evocar a “nobreza”
do seu ideal neoliberal ou elogiar o capitalismo? Muito raramente porque o que
lhes interessa é o “pote”…
Os segundos, com uma confrangedora frequência,
valorizam mais as ideias do que os fins. Gastam uma dose considerável da sua
energia a demonstrar que são os mais competentes para atingir os objetivos de
progresso e justiça social e subalternizam as formas de concretizar tais
objetivos. Apontam baterias para os privilégios fraturantes mas na prática só
disparam para alvos subalternos. A mais pequena diferença ideológica, mesmo até
diferenças de léxico ou de “liturgia”, são razões suficientes para alimentar
ruturas. Se não cantam os mesmos hinos, se não são adeptos dos mesmos
personagens históricos, se não partilham as mesmas palavras de ordem, já não se
entendem. Responsabilizam-se reciprocamente pela inviabilização das alianças
necessárias.
A história mostra que quando os povos convergem
para objetivos tangíveis, quando conseguem superar as diferenças ideológicas e
logram fazer alianças - tal como costumam fazer as forças do retrocesso -, por
maiores que sejam os obstáculos encontram sempre formas de agir concertadamente
e de vencer os desafios. O conceito “o povo unido jamais será vencido” é
rigorosamente verdadeiro se não se limitar a uma boa ideia. Ter boas ideias é
importante mas, mais importante do que ter boas ideias, é, definitivamente, ser
capaz de concretizá-las.
Daniel D. Dias
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