segunda-feira, 11 de março de 2013

Ideias e objetivos




Todos os seres humanos têm apegos naturais aos quais não podem fugir. Necessidades fisiológicas, como a fome e o sexo, ou psicológicas, como a segurança e o afeto, são exemplos universais. Estas necessidades condicionam quase absolutamente a vida de todos nós, todavia há uma diferença muito grande entre aqueles que para satisfazê-las se dispõem a “ajustar” as ideias que defendem aos seus interesses, e aqueles que são capazes de sacrificar os seus interesses às ideias que defendem.

Acho curioso que os que subordinam as ideias aos seus interesses raramente são “esquisitos” com as ideias que perfilham em cada situação concreta. Podemos observar este fenómeno ao longo de toda a história. Os chamados conservadores – na prática os defensores de privilégios – quando a situação política lhes parece desfavorável, envergam as vestes do poder que se instala e começam logo a tirar partido dele. A forma que encontram para minar esse novo poder é aderir a ele e, paulatinamente, sabotá-lo. Quando esse poder estiver suficiente enfraquecido, voltam às antigas vestes sem qualquer hesitação.

Como é diferente o comportamento dos que só lhes interessa defender os seus privilégios dos que se batem por ideias progressistas e de justiça social!

Os primeiros geralmente ajustam-se a cada momento. Aliam-se aos que com eles têm menos divergências e raramente fazem reparo nas suas diferenças ideológicas. Não perdem tempo com coisas menores como essa coisa de “ideologias”. Estão objetivados nos seus interesses e as ideias que professam são modeladas em função das suas necessidades e qualquer ideia pode servir se não puser em causa o essencial desses interesses. Alguém já viu algum poder da direita, algum especulador financeiro, evocar a “nobreza” do seu ideal neoliberal ou elogiar o capitalismo? Muito raramente porque o que lhes interessa é o “pote”…

Os segundos, com uma confrangedora frequência, valorizam mais as ideias do que os fins. Gastam uma dose considerável da sua energia a demonstrar que são os mais competentes para atingir os objetivos de progresso e justiça social e subalternizam as formas de concretizar tais objetivos. Apontam baterias para os privilégios fraturantes mas na prática só disparam para alvos subalternos. A mais pequena diferença ideológica, mesmo até diferenças de léxico ou de “liturgia”, são razões suficientes para alimentar ruturas. Se não cantam os mesmos hinos, se não são adeptos dos mesmos personagens históricos, se não partilham as mesmas palavras de ordem, já não se entendem. Responsabilizam-se reciprocamente pela inviabilização das alianças necessárias.

A história mostra que quando os povos convergem para objetivos tangíveis, quando conseguem superar as diferenças ideológicas e logram fazer alianças - tal como costumam fazer as forças do retrocesso -, por maiores que sejam os obstáculos encontram sempre formas de agir concertadamente e de vencer os desafios. O conceito “o povo unido jamais será vencido” é rigorosamente verdadeiro se não se limitar a uma boa ideia. Ter boas ideias é importante mas, mais importante do que ter boas ideias, é, definitivamente, ser capaz de concretizá-las.

Daniel D. Dias

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