Pode ser que esteja errado mas tenho ideia de que estamos a
viver uma situação revolucionária. Essa revolução já deve ter começado há algum
tempo - não sei quando nem onde -, e não me parece que seja apenas uma
revolução circunscrita a Portugal, ou à Península, ou sequer ao continente
europeu. Acho que desta vez é mesmo o mundo que se prepara para mudar.
Mas observo o que está mais próximo que é o nosso próprio
país. Vejo o PS – no recorrente papel de Pântano (ou Planície) da democracia
portuguesa -, a ser ostensivamente namorado pela direita. Ou muito me engano,
ou na situação social extremada que se avizinha, Cavaco Silva tem na manga uma
cartada: a formação dum governo PS-CDS. Um governo que pode resultar dum acordo
parlamentar com o consentimento do PSD ou dum acordo programático à volta dum
governo que tenha a concordância desses partidos, e, já se sabe, discretamente,
a concordância duma considerável parte do PSD que desespera por isso… Eles são
hábeis a encontrar fórmulas se estiverem para aí virados.
Esta ideia tem-me bailado na cabeça e esta manhã saiu
reforçada ao ouvir as intervenções na A.R., em especial o discurso do inefável
Paulo Portas. Foi tão delicado com o PS, deixou-lhe tantas portas abertas, que
fiquei quase sem dúvidas. Começo a entender o sentido das recentes posições de
“generosidade” democrática de Augusto Santos Silva e de outras personalidades
do PS ao defender a liberdade de expressão de ministros como Relvas. É gente
que conhece bem o poder e percebe que dentro em pouco pode estar na situação de
Relvas e que o melhor é começar já por condenar o “vexame” que Relvas sofreu para
não vir no futuro a ser vítima da mesma situação. Ou seja, já conta com o poder
como certo.
Mais uma vez o poder se disputa ao centro, nas oscilações do
Pântano. A habilidade da esquerda está de novo posta à prova: Ou facilita a
tarefa à direita espremendo o PS nas suas contradições - o que terá quase certo
o efeito de reforçar a sua ala direitista -, ou consegue concertar posições com
o PS apoiando a sua debilitada ala esquerda
e logra desse modo inviabilizar o previsível resvalar do PS para a direita.
A primeira postura é a mais óbvia e a mais fácil de
concretizar mas os resultados são incertos. O descontentamento com a chamada
“classe política” estende-se também aos partidos da esquerda, e em termos
eleitorais – se se vier a colocar a situação de eleições antecipadas -, a
subida da esquerda mais que provável, pode ainda assim não ser suficiente para
garantir um genuíno governo de esquerda. A segunda postura será mais realista e
trará resultados mais consistentes mas implica uma difícil concretização. A
concertação de posições implica muitas cedências recíprocas entre partidos e,
seguramente, o adiar de muitas das aspirações políticas mais relevantes. Vai
obrigar a muita habilidade política, a muito ”jogo de cintura”, e a engolir
muitos sapos.
A manifestação de amanhã poderá, entre outras coisas, ajudar
a decidir qual das duas posturas a esquerda adotará.
Daniel Dias
*Referência à Assembleia Constituinte na Revolução Francesa
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