sexta-feira, 1 de março de 2013

Como lidar com o Pântano*



Pode ser que esteja errado mas tenho ideia de que estamos a viver uma situação revolucionária. Essa revolução já deve ter começado há algum tempo - não sei quando nem onde -, e não me parece que seja apenas uma revolução circunscrita a Portugal, ou à Península, ou sequer ao continente europeu. Acho que desta vez é mesmo o mundo que se prepara para mudar.

Mas observo o que está mais próximo que é o nosso próprio país. Vejo o PS – no recorrente papel de Pântano (ou Planície) da democracia portuguesa -, a ser ostensivamente namorado pela direita. Ou muito me engano, ou na situação social extremada que se avizinha, Cavaco Silva tem na manga uma cartada: a formação dum governo PS-CDS. Um governo que pode resultar dum acordo parlamentar com o consentimento do PSD ou dum acordo programático à volta dum governo que tenha a concordância desses partidos, e, já se sabe, discretamente, a concordância duma considerável parte do PSD que desespera por isso… Eles são hábeis a encontrar fórmulas se estiverem para aí virados.

Esta ideia tem-me bailado na cabeça e esta manhã saiu reforçada ao ouvir as intervenções na A.R., em especial o discurso do inefável Paulo Portas. Foi tão delicado com o PS, deixou-lhe tantas portas abertas, que fiquei quase sem dúvidas. Começo a entender o sentido das recentes posições de “generosidade” democrática de Augusto Santos Silva e de outras personalidades do PS ao defender a liberdade de expressão de ministros como Relvas. É gente que conhece bem o poder e percebe que dentro em pouco pode estar na situação de Relvas e que o melhor é começar já por condenar o “vexame” que Relvas sofreu para não vir no futuro a ser vítima da mesma situação. Ou seja, já conta com o poder como certo.

Mais uma vez o poder se disputa ao centro, nas oscilações do Pântano. A habilidade da esquerda está de novo posta à prova: Ou facilita a tarefa à direita espremendo o PS nas suas contradições - o que terá quase certo o efeito de reforçar a sua ala direitista -, ou consegue concertar posições com o PS apoiando  a sua debilitada ala esquerda e logra desse modo inviabilizar o previsível resvalar do PS para a direita.

A primeira postura é a mais óbvia e a mais fácil de concretizar mas os resultados são incertos. O descontentamento com a chamada “classe política” estende-se também aos partidos da esquerda, e em termos eleitorais – se se vier a colocar a situação de eleições antecipadas -, a subida da esquerda mais que provável, pode ainda assim não ser suficiente para garantir um genuíno governo de esquerda. A segunda postura será mais realista e trará resultados mais consistentes mas implica uma difícil concretização. A concertação de posições implica muitas cedências recíprocas entre partidos e, seguramente, o adiar de muitas das aspirações políticas mais relevantes. Vai obrigar a muita habilidade política, a muito ”jogo de cintura”, e a engolir muitos sapos.

A manifestação de amanhã poderá, entre outras coisas, ajudar a decidir qual das duas posturas a esquerda adotará.

Daniel Dias
*Referência à Assembleia Constituinte na Revolução Francesa

Sem comentários:

Enviar um comentário

Não são permitidos comentários que contenham, publicidade e divulgação de site(s), conteúdos maliciosos, ou promoção a violência, o racismo, a discriminação sexual, a xenofobia e ainda linguagem ofensiva, caluniosa ou grosseira.