segunda-feira, 18 de março de 2013

Comunicação "kitsch": Não há pachorra



É cada vez mais evidente a calamidade que assola a Europa. Não sei se já não foi atingido o ponto de não retorno mas se não foi não estaremos muito longe dele.

A recente decisão do Eurogrupo de assaltar as contas bancárias de cidadãos comuns é o último descarado atrevimento desta liderança europeia que assiste, impávida, ao recrudescimento da extrema direita um pouco por todo o lado como o demonstra a recente manifestação de antigos SS na Letónia.

Quanto ao crédito desta elite política que (des)governa a Europa e afunda Portugal, nada preciso acrescentar. As eleições que vão por aí ocorrendo, as recentes sondagens, entre muitos outros sinais, evidenciam o crescente descrédito, não só da chamada “classe política”– que abrange todos partidos, é bom não esquecer - como das perspectivas de qualquer solução para os problemas europeus no atual quadro institucional. O espetro da revolução ou da guerra está cada vez mais presente.

Mas no meio de tudo isto o que mais me enfurece – eu que procuro a todo o custo manter a calma – é a comunicação que nos servem. É uma comunicação controlada por manipuladores profissionais que usa as mais avançadas técnicas das Relações Públicas para atingir os seus fins. A objetividade (jornalística) é apenas uma simulação. Toda a comunicação é veiculada em doses e alinhamento que leva as grandes massas a acreditar em ideias feitas contrárias aos seus interesses. A grande mestria desta comunicação consiste em substituir-se à opinião das próprias pessoas. É uma espécie de doença autoimune: A capacidade analítica das pessoas é pervertida de tal forma que ela própria se encarrega de liquidar, quase à nascença, o mais leve assomo se autonomia crítica.

Como exemplo observe-se a informação sobre esta comissão liquidatária  a que chamam governo: Aquela que a denuncie ou que a ponha em causa é logo “enquadrada” com doses de contra informação suficientes para levantar a dúvida e fazer supor que não há alternativas à situação atual. Num comentário deixa-se que se exprima a indignação; nos três comentários seguintes procura-se quem semeie o desânimo, a descrença e a confusão. Tudo em nome da isenção, da objetividade, do contraditório. Como se fosse equilibrado, justo, dar oportunidades iguais (de defesa) aos ladrões e às suas vítimas. Como se mentira e verdade fossem iguais em legitimidade. “Este tipo está para aqui a dizer umas verdades, a dizer que a Terra gira em volta do Sol. Vamos lá desenterrar um inquisidor para apresentar o contraditório.” E o povo fica na dúvida: será que gira mesmo? É assim que funciona. Tudo parece bem-intencionado, objetivo, científico; mas a única coisa realmente científica que tem esta comunicação é a sua estrutura intencionalmente manipuladora. O dr. Goebels  ao pé dos seus colegas atuais não passaria dum principiante “naïf”.

Habituado desde há muito às agressões diárias lá vou resistindo. Bufo aqui, praguejo acolá, mas geralmente controlo-me. Às vezes até quase me fico, pasmado, a apreciar a arte - a lata -, dos profissionais de comunicação que dão a cara. (Provavelmente os mais eficazes e perversos não o fazem). Uns são bem falantes, persuasivos, inteligentes. Outros têm carisma, saber. Detesto-os mas fico a invejar-lhes o descaramento. Tenho por eles a mesma admiração que nutro pela ousadia e talento dos carteiristas…

Mas o que realmente não aguento – aquilo que me faz “passar” -, é essa comunicação desonesta, essa “pulp fiction” jornalística, servida na versão “kitsch”. A bajulagem rafeira feita a esse novo papa, elevado à categoria de Messias redentor recém chegado à terra, é o mais recente é absolutamente confrangedor exemplo. Como é possível proferirem-se tantos disparates e durante tanto tempo, sobre uma figura que se veste duma forma que faria o Cristo corar de vergonha? Choca-me, por exemplo,  ver uma profissional tão credenciada, tão ilustre, como a Dra. Fátima Campos Ferreira - senhora que põe Portugal a discutir o seu futuro e que manda calar a mais destacada “intelligentzia portuguesa, displicentemente sentada -, a tecer loas ao carisma deste papa suspeito de colaborar com ditaduras fascistas, num tom lamechas mais apropriado para quem fala com o avô jarreta que se foi visitar ao lar.  E há muitos mais exemplos. De gente culta, de pena apurada. Muitos pagos por contribuintes, ateus, como é o meu caso. Não há pachorra…

Daniel D. Dias

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