quarta-feira, 6 de março de 2013

Chavez e o "charme" discreto da elite europeia




Pode não se gostar do estilo de Chavez. Populista dizem uns, anti democrático dizem outros. Mas a verdade é que Chavez com o seu controverso projeto “bolivariano” melhorou a vida da grande maioria dos venezuelanos. Transformou o petróleo em leite para as crianças, diminui substancialmente o analfabetismo, melhorou a saúde pública, colocou no mapa (sic) as favelas onde vivem mais de 4 milhões de pessoas e que os anteriores governos “democráticos” designavam por “zonas verdes”.

O matador de elefantes da casa real de Espanha - com problemas nas articulações pelo seu intenso trabalho nos safaris e agora envolvido em escândalos de corrupção -, um dia mandou calar Chavez. A Europa engravatada, a América dos casinos, solidarizou-se  com o monarca e exultou. É uma Europa que não gosta de ver por perto, gente mal vestida, quem dorme em tendas de beduínos ou convive, sem se incomodar, com o “mau gosto” popular.  Sentiu-se reconfortada com este “momento histórico”, que logo no dia da morte de Chavez, fez questão de recordar.

Acabou de morrer Chavez mas agora esta Europa civilizada que convive bem com ditadores desde que usem gravata de marca, se desloquem em avião particular ou que exalem um bom perfume francês, dificilmente exultará.  Está de mão estendida e tem o seu povo prestes a exigir-lhe que lhe dê o que lhe prometeu e a devolver o que lhe tem tirado.

A elite que domina a Europa está de olho na cesta de provisões das “Boule de suif“* que por aí restam e volta a esquecer os seus valores“, e a sua “superioridade moral“. Faz acordos com exploradores de mão de obra infantil e com traficantes de diamantes de sangue. Financia fundamentalistas que mutilam mulheres, e apoia “apartheids civilizados”. Mas agora tem uma tarefa mais exigente pela frente: habituar-se a lidar com outros Chavez – uns que andam de “carocha”, outros com cara de índio -, que teimam em nascer por aí.

Esta elite vai ter de envergar mais vezes o seu boné de feirante, despojar-se mais da gravata e trocar os sapatos Gucci por botas de labrego. O seu polido “charme” discreto vai ser posto à prova. Uma grande oportunidade para os gestores de imagem e estilistas de alto gabarito.

Daniel Dias

*Referência à novela de Guy de Maupassant, “Boule de suif“

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