As pessoas constatam que são governadas por gente
irresponsável, por garotos que sem nunca terem feito nada na vida são
promovidos, num ápice, aos mais altos cargos dirigentes do país e ficam
espantadas. Não percebem com tal coisa ocorre sem que deem por isso, como podem
ser dirigidos por tanta gente que não conhecem e que não escolheram quando votaram.
E a tendência é desatar a maldizer a democracia, os políticos e a política em
geral, como a fonte de todos os males.
Mas a fonte dos problemas, a perversão da atividade política
a que se assiste, assenta em algo que as pessoas parece que não se apercebem: Na
profissionalização da política, e mais concretamente, na chamada "carreira
política" que se efetua por via dos partidos.
Insisto em chamar a atenção para esta questão que me parece
básica e essencial: a política não é profissão. Todos nós, para além da
atividade que exercemos para sobreviver ou para nos formar, como membros da
sociedade que somos temos, “ipso-facto”, uma função política: como pais, como
cidadãos, como donas de casa, como encarregados de educação, como
administradores de condomínio, como meros cidadãos, etc.
Se dispusermos da confiança dos nossos concidadãos eventualmente
poderemos também ser escolhidos para desempenhar cargos públicos. Ora se tal
ocorrer e obrigar à ocupação do nosso tempo por inteiro, teremos naturalmente de
ser compensados mas por um montante idêntico ao que ganharíamos na profissão cujo
exercício suspendemos e por um tempo determinado. Se o exercício dos cargos
públicos for efetuado por dever de cidadania e não para aceder a um qualquer “pote”,
a atividade política tenderá a regenerar-se. Isto pode parece irrealista ou
impraticável mas foi assim no passado, ainda é assim em muitas circunstâncias e
deve ser recuperado este espirito para contrariar o carreirismo a que se
assiste.
Está difundida a ideia que a política implica um certo
número de competências específicas , que só uma certa elite é que tem
capacidade para desempenhar. É uma ideia profundamente errada mas que dá jeito
manter a um certo número de pessoas. A
competência exigida no exercício político é de natureza cívica. Assenta no bom
senso, no sentido de responsabilidade e de justiça, na capacidade de liderança,
na honestidade, na maturidade, tudo atributos que só a “universidade da vida”
confere e que a todos deve assistir.
A decisão política tem uma natureza diferente da decisão profissional.
Se no exercício dum cargo político o cidadão responsável por esse cargo precisa
de decidir numa área determinada -, obras públicas, energia, justiça, segurança
pública, economia, saúde pública, educação, relações com outros países, etc. – deve
servir-se e aconselhar-se junto dos profissionais que se ocupam dessas áreas - engenheiros,
cientistas, juristas, militares, médicos, economistas, contabilistas,
historiadores, filósofos, artistas, etc.. Esta questão não é assim tão difícil
de entender e praticamo-la todos os dias: decidimos comprar um carro e não somos
mecânicos, escolhemos a casa para viver e não precisamos de ser arquitetos. O decisor
político deve ser avisado, prudente, ponderado, mas não precisa de ser
especialista na área sobre a qual é preciso decidir, tal como o presidente dum
clube desportivo não precisa de ser atleta ou treinador. Bem entendido, precisa
de ser bem informado, ter carater, decisão, sentido da oportunidade. Ser for
sábio, se souber alguma coisa do assunto, tanto melhor. Mas não é condição “sine
qua non”.
Impedir os partidos de serem fábricas de políticos
profissionais é uma urgente tarefa de cidadania. Só dessa forma se eliminará os
riscos dos “jotas” continuarem a aceder ao poder. Só dessa forma se poderá
lutar eficazmente contra a corrupção no exercício dos cargos públicos. Mais do
que criar novos partidos é crucial que os militantes e simpatizantes dos diversos partidos,
comecem a discutir esta questão por forma a pô-la em prática o mais rapidamente
possível.
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