quinta-feira, 4 de julho de 2013

Política e "carreira política"


 
As pessoas constatam que são governadas por gente irresponsável, por garotos que sem nunca terem feito nada na vida são promovidos, num ápice, aos mais altos cargos dirigentes do país e ficam espantadas. Não percebem com tal coisa ocorre sem que deem por isso, como podem ser dirigidos por tanta gente que não conhecem e que não escolheram quando votaram. E a tendência é desatar a maldizer a democracia, os políticos e a política em geral, como a fonte de todos os males.

Mas a fonte dos problemas, a perversão da atividade política a que se assiste, assenta em algo que as pessoas parece que não se apercebem: Na profissionalização da política, e mais concretamente, na chamada "carreira política" que se efetua por via dos partidos.

Insisto em chamar a atenção para esta questão que me parece básica e essencial: a política não é profissão. Todos nós, para além da atividade que exercemos para sobreviver ou para nos formar, como membros da sociedade que somos temos, “ipso-facto”, uma função política: como pais, como cidadãos, como donas de casa, como encarregados de educação, como administradores de condomínio, como meros cidadãos, etc.

Se dispusermos da confiança dos nossos concidadãos eventualmente poderemos também ser escolhidos para desempenhar cargos públicos. Ora se tal ocorrer e obrigar à ocupação do nosso tempo por inteiro, teremos naturalmente de ser compensados mas por um montante idêntico ao que ganharíamos na profissão cujo exercício suspendemos e por um tempo determinado. Se o exercício dos cargos públicos for efetuado por dever de cidadania e não para aceder a um qualquer “pote”, a atividade política tenderá a regenerar-se. Isto pode parece irrealista ou impraticável mas foi assim no passado, ainda é assim em muitas circunstâncias e deve ser recuperado este espirito para contrariar o carreirismo a que se assiste.

Está difundida a ideia que a política implica um certo número de competências específicas , que só uma certa elite é que tem capacidade para desempenhar. É uma ideia profundamente errada mas que dá jeito manter a um certo número de pessoas.  A competência exigida no exercício político é de natureza cívica. Assenta no bom senso, no sentido de responsabilidade e de justiça, na capacidade de liderança, na honestidade, na maturidade, tudo atributos que só a “universidade da vida” confere e que a todos deve assistir.

A decisão política tem uma natureza diferente da decisão profissional. Se no exercício dum cargo político o cidadão responsável por esse cargo precisa de decidir numa área determinada -, obras públicas, energia, justiça, segurança pública, economia, saúde pública, educação, relações com outros países, etc. – deve servir-se e aconselhar-se junto dos profissionais que se ocupam dessas áreas - engenheiros, cientistas, juristas, militares, médicos, economistas, contabilistas, historiadores, filósofos, artistas, etc.. Esta questão não é assim tão difícil de entender e praticamo-la todos os dias: decidimos comprar um carro e não somos mecânicos, escolhemos a casa para viver e não precisamos de ser arquitetos. O decisor político deve ser avisado, prudente, ponderado, mas não precisa de ser especialista na área sobre a qual é preciso decidir, tal como o presidente dum clube desportivo não precisa de ser atleta ou treinador. Bem entendido, precisa de ser bem informado, ter carater, decisão, sentido da oportunidade. Ser for sábio, se souber alguma coisa do assunto, tanto melhor. Mas não é condição “sine qua non”.

Impedir os partidos de serem fábricas de políticos profissionais é uma urgente tarefa de cidadania. Só dessa forma se eliminará os riscos dos “jotas” continuarem a aceder ao poder. Só dessa forma se poderá lutar eficazmente contra a corrupção no exercício dos cargos públicos. Mais do que criar novos partidos é crucial que os militantes  e simpatizantes dos diversos partidos, comecem a discutir esta questão por forma a pô-la em prática o mais rapidamente possível.
 Daniel D. Dias

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