terça-feira, 21 de maio de 2013

Velhos mastins



As forças cronicamente nostálgicas dos esplendores imperiais, insatisfeitas com os resultados obtidos com as suas sempre renovadas receitas bélicas, após a depressiva derrota no atoleiro vietnamita, perceberam que a sua “way of life” estaria ameaçada para sempre se não acrescentassem algo radicalmente novo a essas receitas. E fizeram-no com o contributo de prestigiadas escolas europeias e norte americanas.

Cultivando um “mix” de psicologia behaviorista, de marketing, de moda, de contabilidade criativa, tudo alicerçado na manipulação e controlo totalitário da comunicação e no circunstancial aproveitamento da criatividade gerada pela última vaga da revolução científica e tecnológica – da qual se pretendem promotores -, chegaram a uma nova fórmula por muitos conhecida por “neoliberalismo”. E investiram todo o seu “élan” nesta nova fórmula cuja característica principal parece consistir na combinação de todo o potencial mágico da chamada “new age”, com a especulação financeira -  promovida agora a motor da economia mundial - , remetendo o papel das forças bélicas para golpes de mão pontuais e reforço das estratégias de dominação económica.

Mas esta nova – e definitiva – fórmula, apesar do grande esforço criativo, não era assim tão original: Uma vez mais assentava nas clivagens humanas e na divisão o mundo. Só que desta vez parecia ser diferente: menos geográfica e mais funcional. A “marca” substituía a “raça”. Pela primeira vez a igualdade, sem por em causa a diferença, parecia possível e até “aceitável”. Os senhores podiam finalmente (con)fundir-se com a plebe, misturar-se elegantemente com os subalternos (que passaram a designar-se “colaboradores”), tudo muito por via e pretexto duma democracia cada vez mais formal, eufémica, que assacava a responsabilidade (e o mérito) de ser diferente a cada um, mas sem deixar  que essa (con)fusão alguma vez atingisse o patamar do sacrílego ou comprometesse os rigores da separação das classes.

Na realidade nunca os senhores estiveram tão afastados dos servos, nunca foi tão virtual, tão fingida, essa aproximação entre castas praticada numa orgia mediática, avassaladora. Nunca o conceito de classe, de elite, foi tão deliberadamente equívoco, tão estruturalmente falso, mas nunca pareceu tão real, tão singularmente “democrático”. E alguém chamou a isto, cinicamente, globalização.

E tudo parecia correr pelo melhor, apesar das persistentes ameaças ambientais, do esgotamento dos recursos naturais e do crescimento exponencial das massas famélicas. Houve até quem prognosticasse o “fim da história”... Para muitos o tempo do pragmatismo sociológico chegara, e com ele o fim de todos os idealismos políticos redentores. Ideologias, só mesmo as avalizadas em académicos “papers”, ou por gurus promovidos pelos grandes  “media”. Tudo passaria a ser possível. Especialmente vender ilusões, ludibriar as massas e ainda por cima enriquecendo com esse mister…

Furacão aqui, peste acolá, bombardeamento além, os ricos tornaram-se despudoradamente mais ricos e os pobres absurdamente mais numerosos, mas agora – e finalmente – sem referenciais políticos: os míticos “socialismos reais” , as utopias revolucionárias, foram desmantelados e deram lugar a liturgias messiânicas (saudosistas ou desesperadas), a passividades autoculpabilizantes e castradoras, a resignações massivas e alienantes, a existencialismos, metafísicos ou materialistas...  

Mas as forças da natureza, podem ser subvertidas, ignoradas, mas jamais anuladas. E não tardou que aí estivessem de novo, mais implacáveis do que nunca, a cobrar os abusos. As crises cíclicas tornaram-se contínuas. A todo-poderosa “liberdade de escolha” da qual os próprios proselitistas descreem, já não tem soluções. O imenso cenário-simulacro de progresso e paz social, desmoronou-se. E caiu porque a fórmula mágica que o construiu perdeu todo o seu poder de iludir. É a Crise em todo o seu esplendor!

E de novo a lógica da ilusão dá lugar à lógica da guerra. A velha Europa, a NATO, a América Imperial e os seus apêndices, um pouco por todo o mundo, palpitam por gestas guerreiras. Oh que jeito dava agora uma III Guerra Mundial!  Os falcões profissionais, – que projetavam um assético exército robotizado, operando com técnicos informáticos e gestores de recursos humanos, pronto a combater por encomenda inimigos distantes, terroristas maléficos, malcheirosos e sobretudo anónimos, – saltam apressadamente dos sofás, para a “realpolitik”, recuperando as velhas ciências da guerra na perspectiva de von Clausewitz, agora em leitura ao estilo “karaté Kid”,  de  Sun Tzu... É que o conceito estratégico em vigor, mais pragmático como convém a estes tempos de crise, é ganhar a guerra continuando, obviamente, “a política por outros meios”, mas agora simulando apenas o esforço, não comprometendo os próprios recursos. Ou seja: O objetivo é ganhar a guerra mas pondo os “outros” a combater por eles, e, sobretudo, pondo os “outros” a pagar a sua indústria militar, as despesas do seu “complexo militar industrial”. (Note-se que os “outros” somos quase todos nós…)

É este o drama dos nostálgicos dos esplendores imperiais que ainda vão dominando e que parecem ter-se acantonado na velha Europa. Já não encontram quem esteja disponível para financiar os seus projetos bélicos que em três tempos poriam fim a esta malfadada crise. Ninguém compreende as suas belas intenções... Lamentável. Talvez não seja estranho a este facto, inédito na História, serem os inimigos a abater os únicos que estão em condições de financiá-los…

Que situação mais confrangedora. Fazem lembrar velhos mastins com ganas de morder mas que já não têm força nas queixadas…

Daniel D. Dias

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