terça-feira, 7 de maio de 2013

À memória de Virgulino: A propósito do Exame do Quarto Ano



A D. Leocádia tinha direito ao título de “Senhora” pois era professora do ensino primário considerada “oficial”. Só havia nessa terra mais uma mulher com direito a esse título: a mulher do chefe do posto da GNR, que era sargento. Tudo o mais eram somente "mulheres".

A D. Leocádia, era uma mulher pequena e gordinha, que fazia questão de não exibir afetos maternais aos gaiatos daquela vilória do Alto Alentejo. Talvez fosse uma estratégia pedagógica; talvez fosse receio de que a tomassem por fraca. Nunca soube. Mas os pais dos seus alunos eram unânimes em considerá-la uma excelente professora, porque impunha uma disciplina muito exigente aos alunos da “quarta-classe” recorrendo sem hesitar a uma grossa régua, sempre visível na sua secretária.

Só uma vez a régua desapareceu dessa secretária: foi quando um grupo de quatro alunos, chefiado pelo Virgulino, a escondeu dentro do poço da escola. Mas - já não sei como - a conspiração e a régua, foram rapidamente descobertos e o grupo exemplarmente castigado. Os quatro miúdos alinhados na frente da turma levantavam cada uma das mãos, à vez, e suportavam em cada uma delas, dez reguadas. A cada pancada a mão descaía um pouco mas cada miúdo reerguia-a de novo expondo-a a novo golpe, voluntariamente, sem ser necessário ajuda ou ameaças da professora. As crianças torciam o corpo, apertavam as pernas uma contra a outra, mas não me lembro de verterem uma só lágrima. Uma vez ou outra alguns gemeram mas engoliram os gemidos. Virgulino, claro,  como líder, teve dose reforçada. Não me lembro se levou a dobrar mas foi mais castigado do que os outros. A D. Leocádia fez questão de fazer dele um exemplo.

A D. Leocádia era considerada um modelo como professora pois os alunos que levava a exame – na altura efetuado na sede do concelho, a dezenas de quilómetros da vilória, - passavam quase todos. Lembro-me que havia pais que lhe ofereciam prendas, geralmente, coelhos, galinhas, ou ovos. Eu e um outro miúdo fazíamos parte duma elite que tinha uma preparação especial: eramos candidatos à “admissão ao liceu”. Para além do horário normal das aulas tínhamos de ficar umas quantas horas mais para nos prepararmos. Recordo-me que chegava de noite a casa. Todos os dias percorria 12 quilómetros a pé para frequentar a escola e alguns miúdos moravam ainda mais longe do que eu.

Num retrato que ainda conservo – em muito mal estado – ainda se pode ver o Virgulino e a D. Leocádia. Os miúdos da fila da frente estão todos de joelhos para tapar os pés descalços, deles e da maioria dos outros que figuram nas escadas.

Virgulino era um miúdo corajoso mas não se destacava fisicamente dos outros miúdos. Pela sua desenvoltura julgava que era mais velho do que eu mas há tempo soube que afinal era da minha idade ou até talvez um pouco mais novo. Virgulino, como a maioria dos outros rapazes – as raparigas frequentavam outra turma porque a “moral” da época exigia a separação dos sexos -, trabalhavam nos campos. Alguns eram mesmo empregados. As suas mãos eram rijas - do cieiro e das calosidades – mas ficavam vermelhas quando levavam reguadas. Depois de cada sessão os miúdos ficavam a esfregar as mãos uma na outra, entre as pernas, para aliviar a dor.

Virgulino guardava éguas numa herdade e morreu afogado num pego. Tinha onze anos. Presume-se que terá caído à água e não terá conseguido nadar por levar botas de borracha. mas não há certeza disso pois não havia ninguém por perto. Foi o seu pai e irmãos que descobriram o corpo usando uma fateixa.


Estávamos nos anos cinquenta. O ensino tinha então “qualidade” porque era apoiado na “disciplina”. Só os melhores, os mais aplicados, passavam. Não se assinavam declarações a comprovar que não tínhamos telemóveis (não havia), mas tínhamos de levar gravata e botas ao exame. Os muitos Virgulinos  que conheci ao longo da vida, alguns ainda estão vivos, mas outros morreram ou afogaram a sua inteligência e sensibilidade no álcool ou na vida bruta. Muitos emigraram: foram ajudar os alemães e franceses a tornar-se ricos e criar condições para dar a preciosa formação com que os gaspares e cratos agora preparam o futuro dos nossos netos.

Claro. Já não se usa régua. Mesmo a D. Leocádia – honra lhe seja feita – só a usava “o estritamente necessário” e repudiava a temível palmatória. Mas insidiosamente, subtilmente, sob o pretexto da exigência, da necessidade de melhorar a nossa qualidade, de afinarmos a competitividade, vão introduzindo o germe da desigualdade na cabeça das nossas crianças, modelando as nossas crianças para aceitarem como natural as clivagens sociais. E os pobres pais - que já pertencem a outra geração - colaboram, não dão por nada... Não percebem que a competição só é saudável quando as pessoas partem de bases iguais. Os lares dos portugueses estão cada vez mais desiguais e as suas crianças refletem essa desigualdade. Se continuarmos por este caminho não tardará e teremos escolas para operários e escolas para gestores. Escolas que geram elites destinadas a mandar e escolas destinadas às grandes massas. Como no tempo do “apartheid” … E talvez mesmo o retorno dos “exames de admissão”.

 O conhecimento e o saber devem ser instrumentos para aproximar e não para desunir. Os exames podem ser úteis se forem formas de aprofundar conhecimentos, de estimular o aperfeiçoamento. Mas numa escola pública (ameaçada) que restringe a alimentação das crianças - ou a dos seus pais, o que vai dar no mesmo - que não emprega psicólogos para acompanhar as crianças, que aprofunda a “guetização” da sociedade, que não aposta na valorização dos professores, que limita o acompanhamento individual das crianças com dificuldades, especialmente aquelas que apresentam síndromes de subdesenvolvimento, um exame do “quarto ano”, a fazer lembrar o antigo exame da “quarta classe”, é um sintoma muito preocupante.

O poder foi ocupado por gente que patologicamente teme a igualdade. Gente que no seu íntimo odeia os pobres, mesmo que o seu discurso exiba o contrário. Cuidado: Como diz o professor Cavaco, “não digam que não vos avisei…”

Daniel D. Dias

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