A D. Leocádia tinha direito ao título de “Senhora” pois era
professora do ensino primário considerada “oficial”. Só havia nessa terra mais
uma mulher com direito a esse título: a mulher do chefe do posto da GNR, que
era sargento. Tudo o mais eram somente "mulheres".
A D. Leocádia, era uma mulher pequena e gordinha, que fazia
questão de não exibir afetos maternais aos gaiatos daquela vilória do Alto
Alentejo. Talvez fosse uma estratégia pedagógica; talvez fosse receio de que a
tomassem por fraca. Nunca soube. Mas os pais dos seus alunos eram unânimes em
considerá-la uma excelente professora, porque impunha uma disciplina muito
exigente aos alunos da “quarta-classe” recorrendo sem hesitar a uma grossa
régua, sempre visível na sua secretária.
Só uma vez a régua desapareceu dessa secretária: foi quando
um grupo de quatro alunos, chefiado pelo Virgulino, a escondeu dentro do poço
da escola. Mas - já não sei como - a conspiração e a régua, foram rapidamente
descobertos e o grupo exemplarmente castigado. Os quatro miúdos alinhados na
frente da turma levantavam cada uma das mãos, à vez, e suportavam em cada uma
delas, dez reguadas. A cada pancada a mão descaía um pouco mas cada miúdo
reerguia-a de novo expondo-a a novo golpe, voluntariamente, sem ser necessário
ajuda ou ameaças da professora. As crianças torciam o corpo, apertavam as
pernas uma contra a outra, mas não me lembro de verterem uma só lágrima. Uma
vez ou outra alguns gemeram mas engoliram os gemidos. Virgulino, claro, como líder, teve dose reforçada. Não me lembro
se levou a dobrar mas foi mais castigado do que os outros. A D. Leocádia fez
questão de fazer dele um exemplo.
A D. Leocádia era considerada um modelo como professora pois
os alunos que levava a exame – na altura efetuado na sede do concelho, a dezenas
de quilómetros da vilória, - passavam quase todos. Lembro-me que havia pais que
lhe ofereciam prendas, geralmente, coelhos, galinhas, ou ovos. Eu e um outro
miúdo fazíamos parte duma elite que tinha uma preparação especial: eramos
candidatos à “admissão ao liceu”. Para além do horário normal das aulas
tínhamos de ficar umas quantas horas mais para nos prepararmos. Recordo-me que
chegava de noite a casa. Todos os dias percorria 12 quilómetros a pé para
frequentar a escola e alguns miúdos moravam ainda mais longe do que eu.
Num retrato que ainda conservo – em muito mal estado – ainda
se pode ver o Virgulino e a D. Leocádia. Os miúdos da fila da frente estão
todos de joelhos para tapar os pés descalços, deles e da maioria dos outros que
figuram nas escadas.
Virgulino era um miúdo corajoso mas não se destacava
fisicamente dos outros miúdos. Pela sua desenvoltura julgava que era mais velho
do que eu mas há tempo soube que afinal era da minha idade ou até talvez um
pouco mais novo. Virgulino, como a maioria dos outros rapazes – as raparigas
frequentavam outra turma porque a “moral” da época exigia a separação dos sexos
-, trabalhavam nos campos. Alguns eram mesmo empregados. As suas mãos eram
rijas - do cieiro e das calosidades – mas ficavam vermelhas quando levavam
reguadas. Depois de cada sessão os miúdos ficavam a esfregar as mãos uma na
outra, entre as pernas, para aliviar a dor.
Virgulino guardava éguas numa herdade e morreu afogado num
pego. Tinha onze anos. Presume-se que terá caído à água e não terá conseguido
nadar por levar botas de borracha. mas não há certeza disso pois não havia
ninguém por perto. Foi o seu pai e irmãos que descobriram o corpo usando uma
fateixa.
Estávamos nos anos cinquenta. O ensino tinha então
“qualidade” porque era apoiado na “disciplina”. Só os melhores, os mais
aplicados, passavam. Não se assinavam declarações a comprovar que não tínhamos
telemóveis (não havia), mas tínhamos de levar gravata e botas ao exame. Os muitos
Virgulinos que conheci ao longo da vida,
alguns ainda estão vivos, mas outros morreram ou afogaram a sua inteligência e
sensibilidade no álcool ou na vida bruta. Muitos emigraram: foram ajudar os
alemães e franceses a tornar-se ricos e criar condições para dar a preciosa
formação com que os gaspares e cratos agora preparam o futuro dos nossos netos.
Claro. Já não se usa régua. Mesmo a D. Leocádia – honra lhe
seja feita – só a usava “o estritamente necessário” e repudiava a temível
palmatória. Mas insidiosamente, subtilmente, sob o pretexto da exigência, da
necessidade de melhorar a nossa qualidade, de afinarmos a competitividade, vão
introduzindo o germe da desigualdade na cabeça das nossas crianças, modelando
as nossas crianças para aceitarem como natural as clivagens sociais. E os
pobres pais - que já pertencem a outra geração - colaboram, não dão por nada...
Não percebem que a competição só é saudável quando as pessoas partem de bases
iguais. Os lares dos portugueses estão cada vez mais desiguais e as suas
crianças refletem essa desigualdade. Se continuarmos por este caminho não
tardará e teremos escolas para operários e escolas para gestores. Escolas que geram
elites destinadas a mandar e escolas destinadas às grandes massas. Como no
tempo do “apartheid” … E talvez mesmo o retorno dos “exames de admissão”.
O conhecimento e o
saber devem ser instrumentos para aproximar e não para desunir. Os exames podem
ser úteis se forem formas de aprofundar conhecimentos, de estimular o
aperfeiçoamento. Mas numa escola pública (ameaçada) que restringe a alimentação
das crianças - ou a dos seus pais, o que vai dar no mesmo - que não emprega
psicólogos para acompanhar as crianças, que aprofunda a “guetização” da
sociedade, que não aposta na valorização dos professores, que limita o
acompanhamento individual das crianças com dificuldades, especialmente aquelas
que apresentam síndromes de subdesenvolvimento, um exame do “quarto ano”, a
fazer lembrar o antigo exame da “quarta classe”, é um sintoma muito
preocupante.
O poder foi ocupado por gente que patologicamente teme a
igualdade. Gente que no seu íntimo odeia os pobres, mesmo que o seu discurso
exiba o contrário. Cuidado: Como diz o professor Cavaco, “não digam que não vos
avisei…”
Daniel D. Dias
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