quinta-feira, 6 de junho de 2013

Turquia, Síria: "Quarto Poder" ou "Quinta Coluna"?



Já o tenho referido várias vezes mas nunca é demais insistir: A forma de pensar das pessoas que permite que consintam viver da forma como vivem, contra os seus próprios interesses, viabilizando e até apoiando, situações, regimes e governos que objetivamente comprometem o seu presente, o seu futuro e o futuro dos seus filhos - o que se pode designar por ideologia dominante -, é hoje assegurada, mais que através das armas, das drogas, da manipulação dos sentimentos religiosos, sobretudo através do poder da comunicação social.

Salazar que não é suspeito de ser um grande democrata, nem de agir sem pensar, afirmava que “em política o que parece é”. Isto quer dizer, entre outras coisas, que aquilo que não conhecemos não existe – ideia consignada no célebre “longe da vista longe do coração” -, e que, deturpando e mentindo (ou omitindo) sistematicamente, as pessoas acabam por “aceitar” a verdade oficial e consentir que o mundo avance por caminhos perigosos. Talvez por isso tivesse estado tanto tempo no poder apesar das suas políticas antipopulares.

O poder que vai sendo exercido pelo, até há pouco, designado “mundo livre” e agora mais frequentemente designado “mundo democrático”, está claramente em decadência e já não representa os interesses da esmagadora maioria das populações. No entanto agarra-se àquilo que ainda domina melhor e em que é mestre, que são os “media” e tudo o que tem a ver com a comunicação social, para compensar a sua crescente fragilidade. O domínio dos “media” é a arma de destruição maciça mais poderosa deste poder em decadência.

O levantamento popular na Turquia está a ser deliberadamente encoberto, parece não haver dúvidas. Os jornais da democrática Turquia, dessa guarda-avançada da NATO na grande região dos “infiéis”, que é também a grande região do petróleo e do gás natural, nada dizem sobre o gigantesco movimento popular que ali ocorre nesta altura. Isso não é por acaso e há conivência em toda a imprensa ocidental. A informação que transmitem é parcial e muito limitada. A razão imediata é não só ajudar o aliado turco, impedir contágios a ocidente mas também contribuir para preservar a intervenção turca no conflito sírio.

As Primaveras Árabes foram lançadas explorando o potencial da comunicação e o descontentamento larvar que se sabia existir. Começaram fulminantes, a prometer grandes resultados mas rapidamente se percebeu que nem todas as revoltas são “convenientes”, nem todas atingem os resultados que se preveem, nem todas podem ser “aproveitadas”. É sempre arriscado abrir Caixas de Pandora: Até países como a Turquia e Israel podem ser atingidos…

Por isso essas Primaveras que ainda persistem, que ainda não degeneraram, em que o povo continua a exigir mudanças progressistas estão a ser camufladas: É assim no Iémen, no Bahrein, em Omã, no Iémen, e agora a Turquia.  Mas só a Síria é notícia. Só na Síria se descobriu uma tirania abstrusa, que tinha à viva força de ser derrubada.

No Bahrein o primeiro-ministro é o mesmo desde 1971, e pertence à casa real. Em Omã o sultão, Qabus bin Said, que arrebatou o poder ao pai,  governa o país sozinho desde 1970. O Iémen foi presidido até há pouco pelo general Ali Abdullah Saleh durante mais de trinta anos mas sua família continua a manter a influência no país graças ao apoio da Arábia Saudita, cujas tropas atuam diretamente do terreno. A luta continua nestes países contra a prepotência de tiranos e os graves atropelos aos direitos humanos dos cidadãos que cometem, mas são raras as notícias que passam nos nossos noticiários. O facto de o Bahrein ser a sede da 5ª Frota Americana nada terá a ver com este silêncio? E a proximidade com a Arábia Saudita, principal aliado americano na região, não contará? Todos estes regimes são autocráticos, desrespeitadores dos direitos humanos.  Mas nenhum comentador se digna a falar deles, a analisar a sua política. Nenhuma Teresa de Sousa lhe dedicou um momento de reflexão e quando instadas a fazê-lo tropeçam no discurso ensaiado nas instâncias europeias, gaguejam. Só se interessam pela Síria, só mostram as imagens capturadas pelos rebeldes da Síria cuja génese, nacionalidade, objetivos políticos, estratégia, métodos, ignoram olimpicamente. Até mesmo quando a insuspeita Carla del Ponte  declara na conclusão duma investigação da ONU que o uso de armas químicas na Síria só foi feito por rebeldes, ilibando o “regime”, apressam-se a pô-la em causa. Tal é a sanha anti Assad…

Mas afinal o que tem de especial esta Síria? É por ser mais um regime autoritário? Certamente que não. É simplesmente porque é último elo de ligação que falta para controlar a “rota do petróleo” cuja Meca não está na Arábia Saudita mas no Irão. De repente o regime laico de Assad tornou-se um obstáculo e um crucial ponto estratégico. As grandes potências mundiais – EUA, Rússia, China -  estão com os olhos postos na Síria, pois a Síria tornou-se no princípio do fim do predomínio das “Sete Irmãs do Petróleo”. A Síria é pois axial no Médio Oriente: A economia mundial depende do petróleo e quem controla os caminhos do petróleo controla a economia mundial. A guerra na Síria estava a ser induzida a partir da Turquia que pretendia ganhar o antigo protagonismo otomano na região, desta feita num movimento inverso da sua tradição histórica, a partir da europa e do seu remoto aliado germânico. O caldo cultural vagamente islamita da tradição otomana, dá força à Turquia para atingir esse objetivo, mas o caráter democrático da “aliança” com a Europa é que não dá jeito nenhum… Contradições que agora descambaram em conflito, que minam os esforços da Europa para liquidar Assad e põem em causa certas ambições do poder turco.

Com o atual levantamento na Turquia é quase certo esmorecer o apoio aos rebeldes que combatem Assad, em boa parte mercenários estrangeiros, armados e alimentados através da fronteira turco-síria. A continuar assim é provável para breve o fim do conflito na Síria com a  derrota dos insurgentes e se tal ocorrer poder-se-á antever o início duma nova era estratégica com novos equilíbrios na região e no mundo. Talvez finalmente uma paz definitiva entre Israel palestina seja possível e com ela desapareça um dos mais temíveis focos de tensão mundial…

Obstruindo e camuflando a informação, como está a acontecer na Turquia, (e também, com já vimos, noutras regiões do Golfo), falsificando e deturpando a informação, com acontece na Síria, os “media” subvertem ou atrasam os movimentos libertadores dos povos  e favorecem as ações bélicas cujo fim é a rapina.  Por isso não é exagerado considerar os “media” e a comunicação em geral como um dos principais teatros de operações onde se travam as lutas mais decisivas da humanidade.

Uma vez mais “Quarto Poder” ou “Quinta Coluna” , “that’s the question”.

Daniel D. Dias

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