Já o tenho referido várias vezes mas nunca é demais
insistir: A forma de pensar das pessoas que permite que consintam viver da
forma como vivem, contra os seus próprios interesses, viabilizando e até
apoiando, situações, regimes e governos que objetivamente comprometem o seu
presente, o seu futuro e o futuro dos seus filhos - o que se pode designar por
ideologia dominante -, é hoje assegurada, mais que através das armas, das
drogas, da manipulação dos sentimentos religiosos, sobretudo através do poder
da comunicação social.
Salazar que não é suspeito de ser um grande democrata, nem
de agir sem pensar, afirmava que “em política o que parece é”. Isto quer dizer,
entre outras coisas, que aquilo que não conhecemos não existe – ideia consignada
no célebre “longe da vista longe do coração” -, e que, deturpando e mentindo (ou
omitindo) sistematicamente, as pessoas acabam por “aceitar” a verdade oficial e
consentir que o mundo avance por caminhos perigosos. Talvez por isso tivesse
estado tanto tempo no poder apesar das suas políticas antipopulares.
O poder que vai sendo exercido pelo, até há pouco, designado
“mundo livre” e agora mais frequentemente designado “mundo democrático”, está
claramente em decadência e já não representa os interesses da esmagadora
maioria das populações. No entanto agarra-se àquilo que ainda domina melhor e
em que é mestre, que são os “media” e tudo o que tem a ver com a comunicação
social, para compensar a sua crescente fragilidade. O domínio dos “media” é a
arma de destruição maciça mais poderosa deste poder em decadência.
O levantamento popular na Turquia está a ser deliberadamente
encoberto, parece não haver dúvidas. Os jornais da democrática Turquia, dessa
guarda-avançada da NATO na grande região dos “infiéis”, que é também a grande
região do petróleo e do gás natural, nada dizem sobre o gigantesco movimento
popular que ali ocorre nesta altura. Isso não é por acaso e há conivência em
toda a imprensa ocidental. A informação que transmitem é parcial e muito
limitada. A razão imediata é não só ajudar o aliado turco, impedir contágios a
ocidente mas também contribuir para preservar a intervenção turca no conflito
sírio.
As Primaveras Árabes foram lançadas explorando o potencial
da comunicação e o descontentamento larvar que se sabia existir. Começaram
fulminantes, a prometer grandes resultados mas rapidamente se percebeu que nem
todas as revoltas são “convenientes”, nem todas atingem os resultados que se preveem,
nem todas podem ser “aproveitadas”. É sempre arriscado abrir Caixas de Pandora:
Até países como a Turquia e Israel podem ser atingidos…
Por isso essas Primaveras que ainda persistem, que ainda não
degeneraram, em que o povo continua a exigir mudanças progressistas estão a ser
camufladas: É assim no Iémen, no Bahrein, em Omã, no Iémen, e agora a Turquia. Mas só a Síria é notícia. Só na Síria se
descobriu uma tirania abstrusa, que tinha à viva força de ser derrubada.
No Bahrein o primeiro-ministro é o mesmo desde 1971, e
pertence à casa real. Em Omã o sultão, Qabus bin Said, que arrebatou o poder ao
pai, governa o país sozinho desde 1970. O
Iémen foi presidido até há pouco pelo general Ali Abdullah Saleh durante mais de trinta anos
mas sua família continua a manter a influência no país graças ao apoio da
Arábia Saudita, cujas tropas atuam diretamente do terreno. A luta continua
nestes países contra a prepotência de tiranos e os graves atropelos aos
direitos humanos dos cidadãos que cometem, mas são raras as notícias que passam
nos nossos noticiários. O facto de o Bahrein ser a sede da 5ª Frota Americana
nada terá a ver com este silêncio? E a proximidade com a Arábia Saudita,
principal aliado americano na região, não contará? Todos estes regimes são
autocráticos, desrespeitadores dos direitos humanos. Mas nenhum comentador se digna a falar deles,
a analisar a sua política. Nenhuma Teresa de Sousa lhe dedicou um momento de
reflexão e quando instadas a fazê-lo tropeçam no discurso ensaiado nas
instâncias europeias, gaguejam. Só se interessam pela Síria, só mostram as
imagens capturadas pelos rebeldes da Síria cuja génese, nacionalidade,
objetivos políticos, estratégia, métodos, ignoram olimpicamente. Até mesmo quando
a insuspeita Carla del Ponte declara na
conclusão duma investigação da ONU que o uso de armas químicas na Síria só foi feito
por rebeldes, ilibando o “regime”, apressam-se a pô-la em causa. Tal é a sanha
anti Assad…
Mas afinal o que tem de especial esta Síria? É por ser mais
um regime autoritário? Certamente que não. É simplesmente porque é último elo
de ligação que falta para controlar a “rota do petróleo” cuja Meca não está na
Arábia Saudita mas no Irão. De repente o regime laico de Assad tornou-se um
obstáculo e um crucial ponto estratégico. As grandes potências mundiais – EUA,
Rússia, China - estão com os olhos
postos na Síria, pois a Síria tornou-se no princípio do fim do predomínio das
“Sete Irmãs do Petróleo”. A Síria é pois axial no Médio Oriente: A economia
mundial depende do petróleo e quem controla os caminhos do petróleo controla a
economia mundial. A guerra na Síria estava a ser induzida a partir da Turquia
que pretendia ganhar o antigo protagonismo otomano na região, desta feita num
movimento inverso da sua tradição histórica, a partir da europa e do seu remoto
aliado germânico. O caldo cultural vagamente islamita da tradição otomana, dá
força à Turquia para atingir esse objetivo, mas o caráter democrático da
“aliança” com a Europa é que não dá jeito nenhum… Contradições que agora
descambaram em conflito, que minam os esforços da Europa para liquidar Assad e
põem em causa certas ambições do poder turco.
Com o atual levantamento na Turquia é quase certo esmorecer
o apoio aos rebeldes que combatem Assad, em boa parte mercenários estrangeiros,
armados e alimentados através da fronteira turco-síria. A continuar assim é
provável para breve o fim do conflito na Síria com a derrota dos insurgentes e se tal ocorrer poder-se-á
antever o início duma nova era estratégica com novos equilíbrios na região e no
mundo. Talvez finalmente uma paz definitiva entre Israel palestina seja
possível e com ela desapareça um dos mais temíveis focos de tensão mundial…
Obstruindo e camuflando a informação, como está a acontecer
na Turquia, (e também, com já vimos, noutras regiões do Golfo), falsificando e
deturpando a informação, com acontece na Síria, os “media” subvertem ou atrasam
os movimentos libertadores dos povos e
favorecem as ações bélicas cujo fim é a rapina. Por isso não é exagerado considerar os “media”
e a comunicação em geral como um dos principais teatros de operações onde se
travam as lutas mais decisivas da humanidade.
Uma vez mais “Quarto Poder” ou “Quinta Coluna” , “that’s the
question”.
Daniel D. Dias
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