Na nossa génese todos fomos pobres, mesmo miseravelmente
pobres. De tal forma que ao longo da história da humanidade várias vezes
estivemos à beira do desaparecimento. Daí ser compreensível que muitos de nós
conservem um atávico horror e rejeição ao estado de pobreza.
Mas não devem confundir-se estes sentimentos com “ódio aos
pobres” que alguns cultivam. Ser pobre, pode ser triste e deprimente, mas não é
vergonhoso. Pelo contrário, vergonhoso é envergonhar-se da pobreza, odiá-la,
segregá-la, ou, ainda pior que isso, explorá-la ou cultivar condições para que
esse estado se perpetue indefinidamente.
E se a vergonha, o ódio e o cultivo da pobreza, são sentimentos
contranatura, também não faz qualquer sentido cultivar o orgulho de ser pobre. Alguns
confundem a pobreza com a modéstia mas isso é um tremendo equívoco. A modéstia
autêntica é uma virtude com muitas vantagens para quem a cultiva, mas nada tem
a ver com pobreza. A modéstia está para a pobreza tal como a parcimónia está
para a fome.
Porque falo nisto? Porque me apercebo que renascem por aí
correntes “moralistas” que enaltecem as vantagens da pobreza, que a “enobrecem”
apelidando-a de humildade. São vozes que apelam à resignação e que procuram
evitar que as pessoas se revoltem contras as injustiças sociais que elas
próprias criam e alimentam.
Uma certa dose de resignação perante as dificuldades que a natureza
nos coloca é talvez uma atitude acertada ou inevitável. Mas a resignação
perante dificuldades que as sociedades nos impõem, que resultam de escolhas
erradas e da prática sistemática de injustiças que consentimos, quase sempre
representam recuos civilizacionais que levam muito tempo a recuperar.
Aceitar a pobreza sobre qualquer pretexto “moral” para
assegurar que privilégios resultantes da injustiça social sobrevivam, é, não só
uma irracionalidade, como uma cobardia política que fortalece o renascimento de
ideias retrógradas que já fizeram grandes estragos no passado.
Daniel D. Dias
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