sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pobreza e equívocos




Na nossa génese todos fomos pobres, mesmo miseravelmente pobres. De tal forma que ao longo da história da humanidade várias vezes estivemos à beira do desaparecimento. Daí ser compreensível que muitos de nós conservem um atávico horror e rejeição ao estado de pobreza.


Mas não devem confundir-se estes sentimentos com “ódio aos pobres” que alguns cultivam. Ser pobre, pode ser triste e deprimente, mas não é vergonhoso. Pelo contrário, vergonhoso é envergonhar-se da pobreza, odiá-la, segregá-la, ou, ainda pior que isso, explorá-la ou cultivar condições para que esse estado se perpetue indefinidamente.


E se a vergonha, o ódio e o cultivo da pobreza, são sentimentos contranatura, também não faz qualquer sentido cultivar o orgulho de ser pobre. Alguns confundem a pobreza com a modéstia mas isso é um tremendo equívoco. A modéstia autêntica é uma virtude com muitas vantagens para quem a cultiva, mas nada tem a ver com pobreza. A modéstia está para a pobreza tal como a parcimónia está para a fome.


Porque falo nisto? Porque me apercebo que renascem por aí correntes “moralistas” que enaltecem as vantagens da pobreza, que a “enobrecem” apelidando-a de humildade. São vozes que apelam à resignação e que procuram evitar que as pessoas se revoltem contras as injustiças sociais que elas próprias criam e alimentam.


Uma certa dose de resignação perante as dificuldades que a natureza nos coloca é talvez uma atitude acertada ou inevitável. Mas a resignação perante dificuldades que as sociedades nos impõem, que resultam de escolhas erradas e da prática sistemática de injustiças que consentimos, quase sempre representam recuos civilizacionais que levam muito tempo a recuperar.


Aceitar a pobreza sobre qualquer pretexto “moral” para assegurar que privilégios resultantes da injustiça social sobrevivam, é, não só uma irracionalidade, como uma cobardia política que fortalece o renascimento de ideias retrógradas que já fizeram grandes estragos no passado.


Daniel D. Dias

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