A ideia simplória de que personalidades como Relvas são
desprovidas de inteligência e de argúcia política, não passa disso mesmo. Para
o comprovar temos a “reintrodução” de Sócrates na cena política nacional pela
mão desse cavalheiro.
Não fosse tratar-se dum ato desesperado da (des)governação
desta comissão liquidatária e a contratação de Sócrates como comentador na
televisão pública, ainda por cima em horário nobre e “pro bono”, passaria para
a história, sem favor, como um golpe de génio ao nível do melhor Maquiável.
Acho que passa despercebido a muita gente este “efeito Sócrates”, congeminado
na mente dum Relvas, finalmente, merecedor inquestionável dum mestrado, se não
mesmo dum doutoramento, em ciência política.
Com este genial golpe, duma penada, a (des)governação desta
maioria
- calou a boca aos que a acusam de temer a oposição e de ter
tiques ditatoriais
- branqueou a administração salazarenta que impôs na
comunicação pública
- introduziu uma divergência (insanável) na única força da
oposição com condições para lhe suceder no atual quadro institucional
- antecipou um álibi para os mais que prováveis desaires
políticos e abriu as válvulas de segurança aos irredutíveis opositores de
Cavaco
- criou na comunicação social uma lebre para todos os
mastins da direita se entreterem a perseguir, a fim de espevitarem e seus
duvidosos “skills”, refinarem as suas “narrativas”, e para que, ao
abocanharem-na, neutralizem os eventuais estragos da sua corrida de 20 minutos
semanais
- fez renascer uma “indignação” de que a direita há muito
estava carenciada, “indignação” capaz de absorver ou até de obter a
concordância (envergonhada) duma certa esquerda que nunca perdoou a Sócrates os
seus atrevimentos reformadores (afinal estava tudo tão bem como estava, não é
verdade?)
- aligeirou a pressão sobre Coelho e sobre outras
personagens do atual quadro político. A
notória diferença de estaleca, transforma
Sócrates num bombo destacado e reduz, “ipso facto”, a envergadura dos restantes
bombos. O grande público tem agora mais um em quem
malhar mas os bombos da maioria ficam a ganhar.
- contribui para a transformação de Sócrates num mito que é
a forma mais eficaz de neutralizar o seu potencial político
Então? Isto não é obra? E se alguma coisa correr mal, o
risco é inteiramente assumido por Relvas, que secretamente já foi reabilitado
pela direita “nobre” – a dos “canudos” – que, se for caso disso, não hesitará
em deitar-lhe a mão…
Daniel D. Dias
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