terça-feira, 2 de abril de 2013

O "efeito Sócrates"



A ideia simplória de que personalidades como Relvas são desprovidas de inteligência e de argúcia política, não passa disso mesmo. Para o comprovar temos a “reintrodução” de Sócrates na cena política nacional pela mão desse cavalheiro.

Não fosse tratar-se dum ato desesperado da (des)governação desta comissão liquidatária e a contratação de Sócrates como comentador na televisão pública, ainda por cima em horário nobre e “pro bono”, passaria para a história, sem favor, como um golpe de génio ao nível do melhor Maquiável. Acho que passa despercebido a muita gente este “efeito Sócrates”, congeminado na mente dum Relvas, finalmente, merecedor inquestionável dum mestrado, se não mesmo dum doutoramento, em ciência política.

Com este genial golpe, duma penada, a (des)governação desta maioria

- calou a boca aos que a acusam de temer a oposição e de ter tiques ditatoriais
- branqueou a administração salazarenta que impôs na comunicação pública
- introduziu uma divergência (insanável) na única força da oposição com condições para lhe suceder no atual quadro institucional
- antecipou um álibi para os mais que prováveis desaires políticos e abriu as válvulas de segurança aos irredutíveis opositores de Cavaco
- criou na comunicação social uma lebre para todos os mastins da direita se entreterem a perseguir, a fim de espevitarem e seus duvidosos “skills”, refinarem as suas “narrativas”, e para que, ao abocanharem-na, neutralizem os eventuais estragos da sua corrida de 20 minutos semanais
- fez renascer uma “indignação” de que a direita há muito estava carenciada, “indignação” capaz de absorver ou até de obter a concordância (envergonhada) duma certa esquerda que nunca perdoou a Sócrates os seus atrevimentos reformadores (afinal estava tudo tão bem como estava, não é verdade?)
- aligeirou a pressão sobre Coelho e sobre outras personagens do atual quadro político.  A notória diferença de estaleca,  transforma Sócrates num bombo destacado e reduz, “ipso facto”, a envergadura dos restantes bombos.  O grande público tem agora mais um em quem malhar mas os bombos da maioria ficam a ganhar.
- contribui para a transformação de Sócrates num mito que é a forma mais eficaz de neutralizar o seu potencial político

Então? Isto não é obra? E se alguma coisa correr mal, o risco é inteiramente assumido por Relvas, que secretamente já foi reabilitado pela direita “nobre” – a dos “canudos” – que, se for caso disso, não hesitará em deitar-lhe a mão…
Daniel D. Dias

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