segunda-feira, 24 de junho de 2013

Arte de escolhas



A vida mostra que é sempre mais fácil cometer erros e destruir do que construir e proceder acertadamente. Esta é uma lição acessível para todos na grande escola da vida, que só quem anda muito distraído ou é desinteressado não aprende.

Este governo que parecia ir cair a qualquer momento, apesar de toda a sua incompetência, apesar de todas as suas contradições, acaba de fazer dois anos! Está agora à vista de forma inequívoca – para quem tenha disponibilidade para ver, bem entendido - que aqueles que achavam que derrubar o anterior governo sem se preocupar com o que viria a seguir, “pois era tudo farinha do mesmo saco”, estavam errados. A política é uma arte de escolhas, e raramente há condições para escolher entre o “bom” e o “ótimo”. As escolhas possíveis – quando as situações o permitem -  são geralmente entre o “mau” e o “menos mau”, quando não mesmo entre o “mau” e o “péssimo”. Derrubar alguma coisa sem ter alternativas em mente ou é inconsciência ou é crime.

Esta crise veio mostrar que a democracia meramente representativa não chega, que a participação dos cidadãos “a tempo inteiro” é indispensável para que os profissionais da política e seus “sponsors”, não a pervertam de modo irreversível. É cómodo e fácil responsabilizar ou atribuir culpas aos líderes que são escolhidos pelos processos tradicionais, mas esquece-se que há sempre um tempo anterior em que é possível fazer alguma coisa. Por exemplo evitar que os partidos se tornem lugares fechados e solitários,  incubadoras de ovos de serpente, ou centrais de controle da opinião pública, a partir dos quais grupos de interesse controlam a sociedade. 

As novas tecnologias de comunicação, especialmente a net, vieram dar voz a muita gente que a não tinha, mas, obviamente, não vieram fornecer mais inteligência e bom senso a quem não tem o espírito virado para esse lado. Em si mesmo a net, tal como o telemóvel, são instrumentos preciosos mas não mudam a natureza humana com a mesma facilidade com que se deixam lidar. Os grandes “media” – as TIC - potenciam da mesma forma verdades e mentiras, disparates e boas ideias. Por isso as “Primaveras Árabes” deram origem a resultados controversos, uns positivos e outros claramente negativos.

O protesto, a “rua”- muito catalisados pelas novas tecnologias da comunicação -, são instrumentos poderosos mas não substituem o trabalho político de base. As pessoas continuam mais disponíveis para protestar do que para participar e não é percetível que tenha aumentado o número das que exigem nos seus partidos, igrejas, escolas, organizações cívicas - nos próprios lugares de trabalho -, mudanças de atuação, especialmente na forma de liderar e de decidir em questões cruciais. Mudanças, diga-se, que não são coisa de pouca monta, pois estão na génese de quase todos os problemas que agora nos afligem. As gestões ruinosas, os desfalques gigantescos, a grande corrupção, não caíram do céu, de súbito e anonimamente. Era algo que se processava há já muito tempo e certamente muita gente, agora vítima desses atos, o vivenciou presencialmente. Mas deixou passar e agora protesta. Protestar é útil mas é limitado ou até mesmo contraproducente se não for acompanhado por outras ações, objetivos cívicos e políticos, se não for produzido no tempo certo, na altura apropriada e não trouxer resultados palpáveis a curto prazo. Os políticos profissionais sabem disso e não há dúvida que muitos deles procuram nesse tipo de atuação a influência e protagonismo que de outra forma não lograriam.

O grande público, naturalmente mais propenso à emoção que à racionalidade, está a aderir de bom grado aos movimentos de massas, quase espontâneos e de grande impacto, que agora vão surgindo com grande frequência, mas geralmente cansa-se depressa. Todavia, quando não logra resultados, abre caminho a participações oportunistas, mais organizadas, que encontram aí campo adequado à expansão de objetivos políticos que não estavam na génese desses movimentos. Poderá ser o que ocorre nesta altura no Brasil a meses das eleições? A ver vamos. Poder-se-á  pois concluir que a “rua”, sem uma linha política clara e orientadora, é de resultados incertos e até eventualmente perigosos…

A ação cívica, o aprofundamento da democracia, designadamente, participando e exigindo mais das suas organizações políticas e mesmo das instituições públicas, são cruciais para que os erros políticos diminuam e que na altura apropriada se saiba escolher o que melhor convém. A “rua” nestas circunstâncias é um excelente complemento. Mas ignorar as instituições existentes, por mais abstrusas que sejam, é sempre um erro que se pagará caro. Enquanto a democracia não é aprofundada a democracia que “vai havendo” deve ser aproveitada o melhor possível. O voto é coisa pouca mas dá – como se tem visto - para fazer chegar ao poder gente cujo objetivo fundamental é por em causa essa democracia que resta, ou coloca-la exclusivamente ao seu serviço, o que acaba por ser a mesma coisa.

Parece pois imperativo e prioritário, para além do protestar, que cada um participe e seja exigente no seu domínio de intervenção cívica, que não se deixe “levar” na onda do seu partido, clube ou igreja. Que seja autónomo,  autocentrado, consciente e responsável. Esse é o caminho que leva à iniciativa, que incrementa a cooperação e a solidariedade. Se assim se proceder, toda a sociedade vai mudando e a dependência de lideranças especiais, “fortes”, “iluminadas”, vai diminuindo.

A democracia participativa é um processo complexo e trabalhoso que implica que todos os cidadãos se assumam como políticos, que, aliás, na verdade, é a sua real condição. O político de carreira, esse que o povo escolhe mas que é quase sempre um serventuário de partidos e frequentemente um fautor da corrupção, ocupará um papel cada vez menos relevante, à medida que a participação cívica das pessoas aumente. Um povo acordado e esclarecido, que aprende e participa, não depende de quaisquer lideranças e, quando o deseja, encontra sempre as lideranças que mais se adequam às suas necessidades.

A todo o momento somos chamados a fazer escolhas. Colocarmo-nos de parte limitando-nos a protestar é deixar para terceiros a escolha que nos compete fazer e nada impedirá que tudo continue como antes. O argumento de que “é tudo a mesma coisa” ou que “ tudo é farinha do mesmo saco” já vimos o resultado que dá. Por isso há que escolher estrategicamente, observar cuidadosamente as diferenças, que sempre existem, apreciar a relação de forças e os equilíbrios possíveis. O importante é assegurar que não se vão repetir os mesmos erros e se vai na direção certa, mesmo que os resultados não sejam aqueles que mais se desejam.  Esta é a essência da arte da política que está ao alcance de todos e que exige acima de tudo duas coisas: Uma atenção isenta e acutilante e uma disponibilidade para intervir prontamente.
Daniel D. Dias

 

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