segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Ser e parecer
Salazar dizia que “em política o que parece é”. E talvez tivesse razão. Acredito que entre outras justificações da sua longevidade no poder esta terá sido uma delas e com peso significativo.
A importância do parecer, da imagem, dos políticos e da política, é cada vez mais reconhecida e, hoje em dia, é objeto de estudo científico aprofundado. Proliferam organizações e profissionais nesta área – marketing de imagem, institutos de sondagens especializados, etc. – para ajudar a eleger presidentes e para os manter no poder.
Mas, por melhor que seja a maquilhagem, por mais eficaz que seja a forma de fazer passar as imagens, a dicotomia do PARECE e do É continuará a representar coisas diferentes, que podem coincidir ou não.
Creio que na génese desta preocupação com a imagem está, na maior parte das vezes, algo dúbio ou eventualmente desonesto. Afinal se a confiança nas qualidades próprias fosse absolutamente genuína porque razão haveria alguém de querer colar à sua imagem pública à imagem (empática) de outro alguém? Porque há-de alguém exibir cortes de cabelo a lembrar a princesa Diana ou os maneirismos de Nelson Mandela?
Reconheço - é uma questão antiga: "À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta". Faz falta então PARECER (-se) mais - muito mais - do aquilo que se É de facto. Parecer será mais importante que ser? Terá sido este o motivo de se atribuir o Prémio Nobel da Paz a Obama, antes mesmo de ele exercer o seu mandato?
Não sei. Tenho ideias concretas sobre o que parecem e o que são muitos dos líderes mundiais (e nacionais), da atualidade e do passado. É quase inevitável não as ter; acho que sucede o mesmo com toda a gente. Mas não vou falar delas, porque posso não ser justo em todas as apreciações – já tenho mudado de opinião acerca de tanta gente… – e, principalmente, porque receio despertar paixões, tanto inadequadas quando desnecessárias, sobre figuras públicas destacadas.
Mas convido a que observem atentamente e com objetividade a cena pública – nacional ou internacional - e que tirem conclusões. As conclusões possíveis, obviamente, pois nem sempre o que É (ou o que acabou por vir a ser) está acessível ou é claro. Verão que há de tudo: Líderes que, como a pescada, antes de o ser já o eram e que no final geraram enormes deceções; políticos que em nome dos valores da esquerda favoreceram a direita mais arrogante; direitistas que foram forçados pelas circunstâncias a “governar à esquerda” ou próximo dos seus valores.
Neste tempo estranho, de gente estranha, talvez seja útil observar os detalhes, os pormenores das maquilhagens que se usam e tentar perceber as motivações (a verdadeira face) por detrás delas. O sábio poeta Aleixo não se cansou de nos alertar para os equívocos que as imagens podem gerar:
“Sei que pareço um ladrão…
Mas há muitos que eu conheço
Que sem parecer o que são
São aquilo que eu pareço”
Daniel D. Dias
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Sinais inquietantes
Desejar uma
coisa – consciente ou inconscientemente – e ao mesmo tempo o seu oposto, ou
receá-la, é a essência da neurose. Pavlov mostrou como se podia produzir
experimentalmente esse fenómeno. Alimentando um cão esfomeado sempre que lhe
mostravam um foco de luz circular, ao fim dum tempo de consolidação do hábito,
o animal reagia, salivando, visionando apenas o sinal luminoso (estímulo
associado “agradável”), sem precisar da comida. Paralelamente condicionava-se o
animal com outro estímulo associado mas desta feita nada agradável.
Infligiam-lhe choques elétricos, sempre que era projetado um foco de luz com
forma de barra retilínea em vez do círculo. Passado algum tempo já não eram
precisos choques elétricos: a simples exibição desse sinal luminoso bastava
para que o cão entrasse em pânico.
Os efeitos
da neurose produziam-se quando o cão era submetido a um novo foco luminoso.
Inclinado a 45º, o projetor gerava agora um foco luminoso oval que era
percecionado ambiguamente pelo animal: insuficientemente redondo para
desencadear o desejo pela comida, mas tendencialmente reto a fazer recordar o
sinal aterrorizador, a oval tinha algo dos dois estímulos opostos (satisfação e
sofrimento) e gerava inquietação e desconfiança. Mas, continuando a reduzir o
ângulo do projetor, tornando a oval cada vez estreita – cada vez mais parecida
com a barra retilínea associada ao sofrimento -, o cão atingia o paroxismo:
desatava a uivar, a urinar, a ladrar, descontroladamente, tentando fugir.
Podiam então apresentar-lhe alimento que não comia, apesar de estar esfomeado.
Assim se manifestavam os sintomas duma crise neurótica artificialmente
induzida.
As
sociedades humanas são, seguramente, estruturas muito mais complexas do que as
dos cérebros dos cães de Pavlov mas, ainda assim, parecem também comportar-se
neuroticamente. As ideologias dominantes – que se manifestam, entre outras
coisas, na educação, nas tradições, na comunicação - habituaram as pessoas a
determinadas expectativas “agradáveis”, com o objetivo de obter delas cidadãos
obedientes e colaborantes.
Mas as
governações, em consequência dos jogos de poder e dos interesses egoístas que
persistentemente lhes subjazem, acabam repetidamente por mergulhar em
contradições, não correspondendo àquilo que prometem, defraudando expectativas.
Nos períodos “bons”, os governos lograrão resolver ou atenuar as tensões assim
geradas: cedendo parcialmente às pressões existentes, recorrendo a ações
demagógicas. Mas também recorrendo a repressões controladas combinadas com
medidas “paliativas”. Estas ações poderão acalmar temporariamente ânimos
sociais exaltados evitando deflagrar conflitos latentes, ou diferir os
problemas para alturas mais favoráveis.
Nos períodos
“maus”, nas crises mais agudas, as manifestações neuróticas surgem reforçadas.
Os medos, das repressões violentas, da miséria social extrema, o terror da ruína
e da falência, renascem no “inconsciente coletivo”. É o tempo de surgirem entre
as grandes massas, os “duces”, os falsos messias, que anunciam soluções
milagrosas e defendem ideologias alienantes. Então, os poderes exercidos com
regras são postos em causa e as pessoas tendem a apreciar mais a força do que a
razão. Guerras surgem em geral no corolário destas situações.
Pergunto-me:
Será que vivemos num tempo destes? Não tenho a certeza disso e espero bem que
não. Todavia há por todo lado sinais inquietantes que me fazem ter vontade de
apelar ao Dr. Freud e de recolher-me num confortável divã…
Daniel D. Dias
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Seguindo maiorais
Grande parte das pessoas leva longe demais a sua passividade e não quer – ou não consegue - perceber esse facto. Procura culpados e quase sempre consegue encontrá-los. Claro que existem culpados porém eles crescem, progridem, fortalecem-se, com a cumplicidade, com o beneplácito, ou com a indiferença da maior parte de nós.
Quando as situações se agudizam as pessoas tendem a optar pelas soluções mágicas por vezes muito extremas. Os atuais ideólogos que surgem pelo mundo e a que chamam “populistas” – gente ridícula geralmente protofascista – fazem parte dessas opções mágicas. É gente extrovertida, descarada, que afirma e promete coisas perigosas, até mesmo absurdas. As pessoas, porém, estranhamente, parecem apreciá-la e seguem-na. Creio que o fazem para aliviar-se, porque estão revoltadas ou desesperadas, mas talvez também, para não se comprometerem com a ação cívica. O grande público, não conhece ou esquece com facilidade as lições da história. E em situações extremas, é sempre mais fácil fazer de carneiro e seguir maiorais, do que enfrentar desafios.
Creio que na base de tudo isto está a desigualdade social, que é bem real, mas que é percecionada de forma idealizada. Tal facto resulta da ignorância política que hoje é cultivada deliberadamente, com denodo e até com suporte científico. O mundo percecionado pelas pessoas é irrealista, quase imaterial, porém a realidade, o dia-a-dia, as matérias-primas base - dos carros, das casas, dos aparelhos, a energia, as estradas, os alimentos - tudo isso e muito mais que não está à vista, não é virtual, continua a ser bem real e analógico, bem pesado e opaco, a esgotar os recursos da terra e, claro está, a dividir-nos. As pessoas vivem uma realidade diferente daquela que percecionam. Sentem, sofrem com isso, mas parece não interessar-se em entender a génese dos problemas. Conformam-se com explicações simplistas. É por isso que personagens sombrios - Trumps, Le Pens e outros que tais - podem proliferar e chegar ao poder com surpreendente facilidade.
Este mundo "faz de conta", que trata como mercadoria, amor, alimento, saúde, fraternidade, simula ser humanista, promete soluções, mas não consegue por as pessoas a viver melhor. A “peste emocional” - de que falava W.Reich - continua a ser uma tremenda realidade e a envenenar a nossa existência.
Daniel D. Dias
terça-feira, 9 de agosto de 2016
"Pax americana" e cozidinho
Nada tenho contra os EUA. Sou grande admirador de muitos dos seus valores, valores que modernizaram mundo: do livre empreendedorismo, à liberdade criativa; do automóvel, à película fotográfica; da eletrificação, ao Macintosh; da vacina anti poliomielite à conquista espacial; do jazz à cultura pop; de Walt Whitman a Ernest Hemingway, balança toda essa minha admiração sincera que não se esgota aqui. Mas não aprecio a sua deriva imperial das últimas décadas, exportadora de violência militar e económica, de invasões a países soberanos, de suporte ativo a regimes retrógrados e desumanos, de difusão massiva de ideologias promotoras do egoísmo exacerbado e doentio, da apologia e banalização da violência, da subordinação da natureza e dos direitos humanos dos povos – incluído do seu próprio povo – aos interesses económicos dos grupos monopolistas que controlam o poder.
A dominância deste país tem criado raízes em quase todos os países do mundo. Sobretudo a ideológica, ou seja, a forma de pensar que subjaze a qualquer cultura. A “american way of life”, fortemente influenciada pelo condutismo de Watson, e, em especial, de Skinner, projetou-se de forma avassaladora por todo o mundo, gerando uma tal “americana pax”, recheada de contradições, de conflitos militares, de golpes de estado, de muito consumo supérfluo, de muita degradação ambiental, e de uma paz precária, ilusória ou muito condicionada.
Tudo isto foi possível graças à dominância que os EUA granjearam nos “media” mundiais. Hollywood foi naturalmente um dos seus pilares primordiais. Mas o controle que dispõem atualmente, direto e indireto, da internet, das centrais de comunicação e notícias, dos conglomerados de entretenimento e das redes por cabo, das centrais de distribuição dos conteúdos multimédia (filmes, séries, documentários), dos grandes grupos de publicidade, permite-lhes promover guerras “em diferido” – por exemplo as chamadas revoluções coloridas, as primaveras árabes -, tudo com menor necessidade de intervir diretamente no terreno, sobretudo com meios humanos. O armamento, o apoio mercenário, obviamente, também faz parte, mas segue depois.
Lembro-me que nos finais dos anos oitenta se discutia a possibilidade de liberalizar as rádios e as televisões em Portugal. Este fenómeno aconteceu em todo o mundo e em Portugal teve grande relevância. Depois de imensa controvérsia dominou a ideia que mais convinha à “pax americana”: acabar com a balbúrdia comunicativa que proliferava – a chamada “pirataria” - e entregar os “media” a grupos “civilizados” ligados a grandes interesses. Nasceu a SIC, a TVI… Na altura pagava-se uma taxa à TV pública, que era considerada um escândalo. Eram apenas alguns Euros por ano, mas geraram grandes protestos. Se havia publicidade paga, porque havia de haver taxa? Eu também protestei… Os novos grupos (e a nova orientação do setor) prometeram – a pretexto da liberalização – acabar com essas taxas. E assim foi, de princípio. Mas a situação aos poucos mudou radicalmente. A introdução da TV por cabo passou a ser paga, sem qualquer oposição. Depois começou a veicular publicidade (paga) na própria programação, apesar dos utentes pagarem um preço elevado pelo serviço. Mas nunca, até hoje, ouvi ninguém esboçar um esboço de revolta perante esta situação. Onde terá ficado essa contestação às taxas?
Mas o pior – para mim, bem entendido – é que estes serviços servidos ao domicílio e pagos principescamente, só veiculam a “pax americana”. Abro a TV (por cabo, claro) e só assisto à versão americana do mundo. Mais de 90% - não exagero - dos filmes e séries apresentados são norte americanos ou similares. Até mesmo nos canais ditos “Premium” (pagos à parte) só muito raramente e numa percentagem mínima se mostram filmes europeus ou de outras proveniências não americanas. Onde foi parar o “free cinema” inglês, a “nouvelle vague” francesa, o novo cinema alemão, o exaltante cinema italiano? Onde param os refrescantes cinemas, japonês, russo, canadiano, húngaro, jugoslavo? Nada sobrou? Eclipsaram-se? Ah: Os efeitos especiais massivos, as tecnologias de ponta, superaram tudo... É isso.
Outro aspeto pérfido deste predomínio ideológico da “pax americana” pode apreciar-se na singular coincidência temática dos filmes que nos são apresentados. Quando há qualquer acontecimento que aparenta fragilizar alguma faceta da “pax americana”, lá chovem os filmes que exaltam o papel dos americanos no mundo, seja na 2ª Guerra Mundial, seja na luta anti terrorista, seja nas diatribes da guerra fria, seja no universo dos super heróis… Será isto por acaso? Serei apenas eu (com a minha eventual má vontade) a reparar nisto?
O papel destes “media” controlados ajudam a deturpar a realidade e a também a história. Estudos mostram que a perceção de quem derrotou o nazismo alterou-se nas últimas décadas, eclipsando os verdadeiros vencedores. Muitos acontecimentos cruciais no mundo são, pura e simplesmente, suprimidos da agenda mediática. Pelo contrário incidentes pouco significativos, são empolados – quando não mesmo inventados – para apresentar relevância mundial e influenciar a opinião pública num ou noutro sentido. Mas o pior, para mim, é que nos aculturam, nos minam as raízes endémicas, sem nos acrescentar valor ou acrescentando muito pouco. Creio que para muitos de nós, certos atores americanos são mais familiares que os nossos próprios atores. No nosso cérebro estão eventualmente mais enraizadas as imagens dos lares, das urbes, das crises, das alegrias americanas, que as que ocorrem no nosso próprio seio. A globalização não é isto, não pode ser isto.
O hamburger e a salsicha, ao que parece, superam ou tendem a superar, as nossas comidas tradicionais. Não tenho nada contra salsichas, mas chateio-me com esse facto. Gosto de salsichas, gosto de hamburgers, mas prefiro um cozidinho. E não tenho nada contra a globalização… nem contra americanos.
Daniel D. Dias
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Prevenções estivais -3
No verão o universo aquático – o paralelo e intrigante
mundo dos peixes – é mais subversivo. Quer mergulhemos nas águas ou nas
cervejarias, os bichos aquáticos atrairão sempre o nosso interesse, e, há
sempre o risco, de se passar de predador a isco e de sermos engolidos por umas
dessa bocas gigantes que escondem em lugares inesperados ou recônditos.
Fica então o conselho: antes de te entregares
a um pescado observa primeiro se o fazes na qualidade de isco ou de predador. De
cabeça fresca, observa o habitat do bicho e o estado das águas. Sonda, engoda,
lê os menus com atenção. Depois decide. E, se for caso disso, mergulha. Mas tem
sempre uma bóia debaixo de olho.
Daniel D. Dias
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Prevenções estivais -2
No verão, o pai/mãe
Sol é generoso: retoca as nossas cores, põe-nos morenos, atraentes. Mas as
noites, a cidade, a vida pouco cuidada, embaçam a nossa pele, empalidecem-nos. E
quando o encanto decai, quem se atraiu por nós em veranis entusiasmos,
continuará assim atraído? Para prevenir desilusões sugiro que nos mostremos, intermitentemente,
“feios”, desencantadores, pois, como é sabido, não há maquilhagem que sempre
dure e os amantes “vero, vero”, devem ser aptos a resistir à face oculta da
beleza... Todavia, quem ensaiar esse teste, deve fazê-lo genuinamente, sem
batota; o estilo “faz de conta” - “négligé” - nunca deve ser usado pois os
resultados são incertos.
Depois, se ninguém acusar
mudanças ou hesitar, se o encanto persistir, as perspectivas – embora nada o
garanta - serão mais animadoras.
Daniel D. Dias
Prevenções estivais -1
Cuidado: Os perfumes podem gerar
melindrosos equívocos. Quem não gosta do nosso cheiro característico é muito
provável que não goste mesmo de nós. Não será por isso que se diz, "não me
cheira", para designar algo de que não gostamos?
Daniel D. Dias
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