terça-feira, 29 de novembro de 2016

Seguindo maiorais




Grande parte das pessoas leva longe demais a sua passividade e não quer – ou não consegue - perceber esse facto. Procura culpados e quase sempre consegue encontrá-los. Claro que existem culpados porém eles crescem, progridem, fortalecem-se, com a cumplicidade, com o beneplácito, ou com a indiferença da maior parte de nós.

Quando as situações se agudizam as pessoas tendem a optar pelas soluções mágicas por vezes muito extremas. Os atuais ideólogos que surgem pelo mundo e a que chamam “populistas” – gente ridícula geralmente protofascista – fazem parte dessas opções mágicas. É gente extrovertida, descarada, que afirma e promete coisas perigosas, até mesmo absurdas. As pessoas, porém, estranhamente, parecem apreciá-la e seguem-na. Creio que o fazem para aliviar-se, porque estão revoltadas ou desesperadas, mas talvez também, para não se comprometerem com a ação cívica. O grande público, não conhece ou esquece com facilidade as lições da história. E em situações extremas, é sempre mais fácil fazer de carneiro e seguir maiorais, do que enfrentar desafios.

Creio que na base de tudo isto está a desigualdade social, que é bem real, mas que é percecionada de forma idealizada. Tal facto resulta da ignorância política que hoje é cultivada deliberadamente, com denodo e até com suporte científico. O mundo percecionado pelas pessoas é irrealista, quase imaterial, porém a realidade, o dia-a-dia, as matérias-primas base - dos carros, das casas, dos aparelhos, a energia, as estradas, os alimentos - tudo isso e muito mais que não está à vista, não é virtual, continua a ser bem real e analógico, bem pesado e opaco, a esgotar os recursos da terra e, claro está, a dividir-nos. As pessoas vivem uma realidade diferente daquela que percecionam. Sentem, sofrem com isso, mas parece não interessar-se em entender a génese dos problemas. Conformam-se com explicações simplistas. É por isso que personagens sombrios - Trumps, Le Pens e outros que tais - podem proliferar e chegar ao poder com surpreendente facilidade.

Este mundo "faz de conta", que trata como mercadoria, amor, alimento, saúde, fraternidade, simula ser humanista, promete soluções, mas não consegue por as pessoas a viver melhor. A “peste emocional” - de que falava W.Reich - continua a ser uma tremenda realidade e a envenenar a nossa existência.
 
 
Daniel D. Dias

Sem comentários:

Enviar um comentário

Não são permitidos comentários que contenham, publicidade e divulgação de site(s), conteúdos maliciosos, ou promoção a violência, o racismo, a discriminação sexual, a xenofobia e ainda linguagem ofensiva, caluniosa ou grosseira.