quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ética nas redes sociais



Se há uma coisa que me aborrece seriamente é a desonestidade intelectual. Qualquer nível detetado, por mais pequeno que seja, é sempre indício, de que se pode ir mais além, ou seja, de que não se pode confiar na pessoa envolvida.

Não sou dos que acham que as pessoas são vis ou perversas porque não pensam como eu ou porque não perfilham as mesmas opiniões. É normal haver desacordos. Admito o erro e a ignorância, em mim e nos outros, embora não os aprecie nem enalteça. Mas apenas o erro e a ignorância; não a desonestidade intelectual.

A desonestidade intelectual é uma forma específica de desonestidade que nem sempre é fácil de identificar. Ela é, por exemplo, a ação de encobrir as reais intenções através da demagogia, ou a deturpação voluntária de ideias ou factos, para atingir objetivos ideológicos ou defender interesses escondidos. É também o uso de artimanhas para ampliar a influência ou procurar obter vantagens, sejam elas de que tipo forem. Tudo isto é feito frequentemente com muito “engenho e arte”: E há grandes “artistas” na redes sociais…

As redes sociais, designadamente o Facebook, constituem um fenómeno novo na comunicação global, que pode ajudar as pessoas a contornar os inconvenientes do isolamento social. Elas representam uma espécie de tribuna crescentemente acessível a todos, estejam aonde estiverem, pertençam a que classe pertencerem.

As redes sociais, aproximam as pessoas distantes de forma simples e acessível, permite-lhes difundir ideias, sensibilidades e gostos dum modo bidirecional, ou seja, dialogante, coisa que os “media” tradicionais, quase nunca asseguraram e tendem a assegurar cada vez menos em contraciclo com as possibilidades abertas pelas novas tecnologias.

Algo tão importante deve ser usado com respeito e ampliado na sua difusão - designadamente combatendo a infoexclusão ainda existente -, e firmemente defendido da infiltração abusiva pelas centrais de “intelligentsia”. Mas também deve ser preservado do uso grosseiro e sobretudo da desonestidade intelectual. É fundamental pois que os utentes adotem um comportamento ético no uso deste instrumento. Sem isso este tipo de comunicação perderá credibilidade e está ameaçado na sua função mais nobre que é comunicar.

É por tudo isto que venho apontar para alguns comportamentos reprováveis indiciadores da referida desonestidade intelectual que tenho vindo a detetar no Facebook. São apenas alguns exemplos - haverá mais seguramente - e não refiro nenhum caso em concreto porque estou convicto que haverá pessoas, involuntariamente ou induzidas por terceiros, que os cometerão de boa fé. (Quantos agentes de vendas, involuntários, não haverá por aí…)  A saber, pois:

- o expediente de usar os “amigos” de forma encoberta, para vender algo. Não serão condenáveis as vendas – de ideias, de produtos ou de serviços - desde que sejam feitas de forma clara, sem margem para dúvidas. Quem quer vender/promover alguma coisa, deve dizer claramente a sua intenção e não disfarçar o ato com qualquer pretexto “generoso”.

- métodos equívocos (para não dizer outra coisa) de ampliar a rede de influência – pessoal ou de grupo -, de engrossar a audiência de “amigos”. Por exemplo utilizar a defesa duma causa – daquelas que sensibilizam toda a gente - para ganhar “amigos” ou argumentar com falsas interdições do FB para levar pessoas a fazer pedidos de amizade.

- atacar ou defender ideias ou pessoas, caluniar ou fazer insinuações vexatórias, utilizando argumentos deturpados, falsos, fora do contexto ou de prazo, não citando fontes, ou fazendo referência a falsas fontes

- apoderar-se de textos, documentos, etc., de terceiros, sem consentimento prévio do(s) autor(es), fazendo-os seus, ou, pior do que isso, reproduzindo-os de forma  propositadamente equívoca ou deformada

- utilizar o prestigio pessoal – seu ou doutrem - para obter vantagens, financeiras ou outras, sob o pretexto de contribuir para a defesa de alguma causa nobre.

Fica aqui esta chamada de atenção como contributo pessoal para preservar este instrumento de comunicação, que, para muita gente é quase a única forma de se ligar com o mundo. Se todos dedicarmos alguma atenção a esta situação estou certo que tornaremos mais difícil a proliferação da desonestidade intelectual nas redes sociais e dessa forma prestaremos um relevante serviço à comunidade.

Bem hajam!


Daniel D. Dias

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Vou rezar



O Machete é uma mancha. O Machete é uma lástima. O Machete, ainda assim, come-nos as papas na cabeça. Porque a oposição não é capaz de ter uma posição comum. Não age:  barafusta. Com esta oposição o Machete pode estar tranquilo. Ele e os outros capangas que estão no poder. Tinha razão o banqueiro Ulrich com o famoso "ai aguenta, aguenta!"...

As batalhas não se ganham com piedosas intenções, com palavras de ordem, com discursos inflamados, mas com inteligência e entusiasmo. Por esta ordem - ou simultaneamente - mas nunca um sem a outra: venham as ideias avançadas, e as estratégias adequadas a cada situação, e esta pandilha desaparece, pulverizada, como por encanto. É preciso entender que não é a direita que é forte. É a esquerda que persiste em ser fraca tendo todas as condições para o não ser como se comprovou nas últimas eleições.

Desculpem. Não há pachorra: vou rezar para ver se o milagre acontece.
 
Daniel D. Dias

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Sim, mas...



Henrique Marçal sintetiza num curto post o que é a preocupação fundamental dos portugueses na atualidade

 

“A bandeira portuguesa no Castelo de S. Jorge

O que está em jogo não será a nossa identidade mas sim a dimensão da nossa autonomia! Como vamos nós portugueses dar uma solução duradoura aos nossos problemas? Este quadro político tem de ser reformulado, bem e rapidamente! Sem perda das garantias e liberdades já conquistadas! Haverá engenho para o efeito?”

 

A minha resposta é "sim, mas".


 "Sim",

porque o povo português dispõe de massa crítica suficientemente consistente para superar qualquer crise. Portugal é o país/nação mais antigo da Europa - dito isto no sentido de que mantém há mais tempo do que qualquer outro uma unidade cultural, linguística, e territorial invulgar -, o que só por si representa uma valia fundamental pois demonstra uma capacidade de sobrevivência exemplar, mesmo nas piores circunstâncias,


"mas"

tem de superar uma idiossincrasia muito peculiar, construída ao longo séculos, porventura ainda muito antes do estabelecimento da nacionalidade, que Unamuno, Sérgio, Antero , Eça, Pessoa, entre outros pensadores, caraterizaram  bem. Interromper a política  - ou filosofia - do "transporte", consagrada na Revolução de 1383 que abre caminho aos descobrimentos e ao Império, é talvez o passo fundamental.

Portugal habituou-se a resolver os seus problemas essenciais a partir do exterior ou por influência externa. Dir-se-ia que o crescimento de Portugal como nação o tornou mais num entreposto político-cultural do que num lugar de sinergias. Esta característica, que nos transforma no “regresso ao lar”, num povo soturno, depressivo,  abúlico (se calhar o fado – a canção “nacional” - é algo paradigmático deste facto assinalado exemplarmente por Unamuno), acaba por nos impedir de aproveitar o nosso lado luminoso e positivo, que é bem real, e não mitológico como muitos o pintam. Ciclicamente esta questão é afrontada – o consulado de Pombal é um dos bons exemplos -, mas temos sempre de recorrer a uma bengala estrangeira (os cruzados a caminho de Jerusalém, para ganhar a independência, os ingleses para preservar essa independência em vários períodos críticos, e agora os fundos estruturais da Europa, ou a troika… Mas há outras). Até a nossa república acaba por ser uma resposta com génese externa, pois tem seguramente origem no humilhante ultimato inglês de 1890.

Estas bengalas exteriores a que recorremos sistematicamente são mais pretextos do que necessidades. Acabamos quase sempre por ser nós, quase exclusivamente, à custa dos nossos recursos endógenos, a resolver as nossas crises. O factor exógeno – a ajuda que vem de fora - funciona apenas como uma espécie de catalisador que teve sempre efeitos secundários penalizadores para a nossa independência.   

A intervenção portuguesa no mundo foi o primeiro e decisivo passo para a globalização. Transformámos a geopolítica do mundo, fomos os primeiros a proporcionar uma vocação mundial à borracha, à batata, ao café, ao chá, à canela, mas também à espingarda, à náutica, à ciência e às artes. Por isso não podemos rejeitar a influência externa. “Mas” temos de usá-la a nosso favor e não contra nós. Para tanto temos de construir uma elite – no sentido nobre do terno – que nos liberte dessa síndrome neurótica que uma pequena camada de privilegiados – sucessora ideológica do partido dos terratenientes derrotado em  Aljubarrota – persiste em cultivar e fazer ressurgir quando enfraquece,  para manter as suas vantagens.


Daniel D. Dias

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Quebrar o enguiço




Estas eleições autárquicas – apesar do regozijo proporcionado pela derrota clara deste execrável grupo de malfeitores que atualmente exerce o poder - deixaram um travo amargo. Se há muito não havia dúvidas de que Portugal continuava culturalmente a ser o “reino cadaveroso” que Ribeiro Sanches denunciava no século XVIII, poucas agora restaram: Entre nós o crime continua a compensar porque a justiça que defendemos está ao nível da nossa (a)moralidade e da débil cultura cívica e política que praticamos.


O crescimento da abstenção é a principal prova disso. Os quase 50% registados são uma demonstração clara de que estamos mais preparados para ser governados em ditadura do que a batermo-nos pelo aprofundamento da democracia. Ou seja: tendencialmente estamos mais disponíveis para aceitar o retrocesso, do que para progredir. Trocamos facilmente a liberdade e a razão por uma frágil segurança assente na ilusória estabilidade prometida por gente que frequentemente nem sequer conhecemos.


Dir-se-á, com razão, que estas eleições também mostraram aspetos inovadores muito interessantes. Houve experiências de aprofundamento da democracia que funcionaram e que foram premiadas. Houve demostração de iniciativas de cidadania com resultados concretos. Mas 50% de abstenção representa um grande número de pessoas, um número que não tem parado de aumentar. Por outro lado subsiste essa quase indiferença pelo perfil ético dos candidatos ao desempenho de cargos públicos. Fica pois um lastro de preocupação.


Tem sido feita a leitura de que a abstenção é um voto de protesto, contra os partidos, contra o sistema. Talvez seja, mas não deixa de ser também uma manifestação de incultura cívica e política. Se for um gesto intencional é como combater um incêndio atirando gasolina para cima. A abstenção não castigou o poder nem o sistema. Prejudicou sobretudo o campo progressista que, em muitos casos – com as suas divisões e sectarismos - se auto liquidou acabando por poupar os partidos do poder a uma queda mais esmagadora.


Maria João Avilez – a aristocrática comentadora da direita portuguesa mais arcaica -, exasperou-se na noite eleitoral contra a elevada abstenção que atribuía aos adeptos do PSD. Evidenciando a sua natureza petulante e pouco dada às coisas da razão, não percebeu que a abstenção é que salvou o PSD dum resultado ainda mais demolidor… Têm destas coisas este tipo de analistas. Mas o mais grave é que muita gente, responsável e empenhada na causa do progresso, não manifeste preocupações com este aspeto da vitória eleitoral.


Como povo parecemos ser mais apreciadores da força do que da ética. A justiça entre nós, é, há já muito, algo retórico para usar mais como argumento do como prática. Talvez isto tenha a ver com o facto de termos sido um dos últimos países a abolir o Tribunal do Santo Ofício, que durante 300 anos, perseguiu e queimou os espritos mais livres, nobres e cultos, deste (e doutros) país, organizando regularmente autos de fé para exaltar o feito. Medroso, inculto e submisso, o povo habituou-se a participar nestes bárbaros espetáculos, espetando alegremente tições nos condenados a caminho da fogueira, muitos dos quais já lá chegavam  cegos ou moribundos.


Somos herdeiros desta gente e talvez por isso poucos de nós – a começar pelos próprios juízes - acreditam na justiça. Veja-se como o concelho mais culto do país exultou com a vitória dum autarca que não teve reservas em meter a mão no “pote”. Barafusta-se contra a corrupção, maldizem-se os que abusam do poder, mas tudo isso pouca importância parece ter quando dos saques e vantagens ilegítimos se utiliza algo que exiba alguma obra…   Em termos de contas somos pouco exigentes, especialmente com os poderosos.


Há, sem dúvida, que relevar o lado positivo destas eleições, pois, se há coisa necessária nesta altura, é “animar a malta”. Mas há também que estar atento ao crescimento  entre nós da incultura política e à proliferação da chamada alienação social. As pessoas e organizações apostadas no progresso devem estar atentas à evolução deste fenómeno e procurar combatê-lo a todos os níveis, desde o público ao familiar. O espetro do “reino cadaveroso” continua vivo e só mudando a mentalidade dos portugueses, elevando o seu nível cultural – especialmente o cívico e político -, se poderá quebrar este secular enguiço.


Daniel D. Dias

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da necessidade de votar estrategicamente nestas Autárquicas



O cidadão comum português está politicamente numa situação complexa. Na realidade a arma que lhe resta – o voto – tem limitados efeitos pois é difícil efetuar uma escolha acertada, uma escolha que não tenha “efeitos secundários” e que tenha alguma utilidade.


Por isso haverá muita gente que preferirá não votar, ou anular o seu voto, como forma de mostrar o seu descontentamento. O resultado dessa atitude será porém favorecer a maioria instalada no poder o que acaba por ter um efeito oposto ao que pretendia. Muita gente, infelizmente, não se aperceberá que no atual sistema a abstenção ou o voto em branco não têm efeitos nos resultados finais o que acaba por favorecer os partidos que já estão instalados e os que tendem a ter maiores votações.


Portanto, para protestar, é preciso ir votar e escolher algum partido. Mas qual? Obviamente, antes de mais, terá de ser algum partido ou coligação da qual não faça parte qualquer dos partidos que compõem esta maioria (PSD-CDS)! A ideia que o poder local é um mundo à parte do poder central – que está a ser muito promovida - é uma ideia errada, especialmente nas atuais circunstâncias. É preciso entender que todas as políticas locais serão sempre afetadas pelo atual poder e que, nesta altura, as questões locais estão naturalmente subalternizadas pelas questões centrais.


Mas há outro aspeto importante a considerar: o voto no partido do “coração” pode, em certas autarquias, ajudar a promover os partidos do poder, ou os seus clones “independentes”.  Basta que ajude a dispersar os votos do partido que esteja mais próximo de derrotar os partidos desta maioria (ou dos seus clones) que na maior parte dos casos é o atual PS, de Seguro… Algumas pessoas têm difundido a ideia de que é preciso  votar também contra o PS. Percebo as razões do apelo mas acho esta ideia profundamente errada. O PS não está no poder e até voltar a haver condições para lá chegar - se chegar -, muita coisa certamente ocorrerá. E uma dessas coisas poderá bem ser, uma mudança de liderança, ou mesmo de orientação política…


Quem quer contribuir para sair da situação que se vive atualmente,  que é uma situação aviltante e sem perspectiva, deverá pois ir votar no domingo  (não se abster portanto), mas deve fazê-lo estrategicamente, quer dizer, o mais racionalmente possível. Se não quer favorecer os partidos desta maioria, deve ter em conta a relação de forças existente na sua autarquia e votar no partido (ou coligação) que melhores condições reúna para derrubar os candidatos PSD-CDS (ou seus clones “independentes”).  Seja ele qual for, incluindo, naturalmente, o PS.

Daniel D. Dias

domingo, 15 de setembro de 2013

A propósito de armas químicas



O recuo de Obama na inevitabilidade de atacar um país por este conter no seu arsenal armas químicas, está a ser explicado nos “media” ocidentais de forma muito curiosa. Alguns apresentam o perigoso (e insensato) finca-pé de Obama como uma vitória pessoal. Se não tivesse apresentado um ultimato a proposta russa não sairia da cartola e não ficaríamos a saber que a Síria tem armas químicas. É uma conclusão que visa transformar uma derrota (diplomática pelo menos) em vitória, salvando a face do presidente americano. Conclusão que pelos vistos não convenceu os falcões americanos que acham que Obama é um presidente fraco – ainda “só” matou o Bin Laden -, nem o próprio secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, que, como fiel seguidor da “pax americana”,  já veio tranquilizar os falcões ocidentais com a denúncia (para os próximos dias) de terríveis crimes contra a humanidade cometidos por Assad, que é o mesmo que dizer: Não se preocupem. Mesmo que o Assad se safe da  questão das armas químicas, ou mesmo que ganhe a guerra – promovida pela Arábia Saudita, pelo Qatar, Turquia, e apoiada pela França, EUA,  Reino Unido, entre outros, está lixado: não escapará do discricionário e temível Tribunal Penal Internacional (do qual os EUA estão imunes!)


Esta indignação à volta das armas químicas é no mínimo estranha. Então os senhores jornalistas, em particular os especializados em questões bélicas, não sabem que uma quantidade considerável de países do mundo dispõem de armas químicas e até de armas biológicas (até o sr. General Pinochet tinha um arsenal privativo…), embora uma parte considerável tenha ratificado um tratado (1993) que proíbe o seu uso? Israel, um vizinho da Síria, curiosamente, não ratificou até ao momento esse tratado. Isso significa que dispõe delas, parece mais que óbvio. Mas já não é assunto relevante pois trata-se dum país amigo e de confiança… As suas armas químicas, as suas (prováveis) armas nucleares, estão em boas mãos. E a Turquia, e a democratiquíssima Arábia Saudita, o Iémen, os Emiratos, não as terão também? Bem sei: são países de confiança – civilizados - onde crianças de 8 anos podem ser mortas numa lua de mel… Mas são questões acidentais, nada comparável aos malefícios que o salafrário do Assad, oftalmologista e laico (o único que sobeja na região), faz à sua população.


Seria interessante aproveitar esta onda de indignação mediática, para difundir que os EUA foram os primeiros - e até agora os únicos - que lançaram bombas atómicas sobre populações, que durante anos prosseguiram programas de eugenia, no seu próprio território e até em países terceiros, em muitos casos sem conhecimento das populações, que têm desde sempre usado arsenal químico – urânio empobrecido, bombas de fósforo, o célebre agente laranja, e sabe-se lá que mais – que são causa comprovada de deformidades, de cancro e de outras doenças em crianças, que não param de crescer, designadamente na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão e nos próprios EUA. Estas situações são cuidadosamente camufladas... Podia aproveitar-se também para informar o público que um dos fornecedores de armas químicas da Síria tem sido até há pouco o Reino Unido e que consta que empresas americanas as têm fornecido também (mas aos rebeldes)…

 Daniel D. Dias

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Merecer a miséria



Um bando de patetas atrevidos - ignorante e desonesto -, tomou com toda a facilidade os destinos do país. Fê-lo porque o povo se deixou embalar pelas grandiloquentes promessas dos que há muito prometem justiça e uma governação justa mas que, na hora da verdade, nunca a logram alcançar atribuindo as culpas sempre aos outros e ao jogo (democrático) desequilibrado que há partida sempre reconhecem estar viciado e por isso os condena a perder…


Se assim é de facto – e há tanto tempo - não será no mínimo pouco sensato voltar a jogar nos mesmos termos esse jogo sempre condenado à derrota, ou a vitórias inconsequentes?


Mas será inevitável que este estado de coisas se repita “ad aeternum”? Acusa-se o adversário - que é menos numeroso e mais primário, que “apenas” dispõe de mais dinheiro -, de ter manhas e, sobretudo, de ser capaz de superar divergências, de se apresentar unido, apesar das divergências por vezes caricatas entre comparsas. Ora se patetas infantilóides conseguem proceder desse modo seria de esperar que pessoas maduras, inteligentes e com bom senso – com menores recursos mas mais numerosas e sábias - o conseguissem com maior facilidade. Mas não é isso que acontece: Basta observar a generalizada ausência de alianças e de candidaturas conjuntas às próximas eleições autárquicas – ausência que em muitos casos oferece de bandeja a possibilidade de iníquas candidaturas, à partida condenadas ao fracasso, de disporem duma oportunidade de ganhar ou de ficar bem posicionadas -, para ver que a estratégia “do costume” continua em vigor e que os resultados previsíveis, por melhores que venham a ser, ficarão uma vez mais aquém das espectativas.


“O povo unido jamais será vencido” : é absolutamente verdadeiro e historicamente comprovado. Mas para o efeito é preciso que quem defende essa união, quem preconiza e deseja o fim desta pandilha no poder, confirme com factos, e não apenas com slogans nem com busca de culpados, que a todo o momento trabalha e está preocupado em superar divergências e em construir sinergias com todos os que são vítimas da situação que se vive e com todas as organizações que se identificam com essa vontade.


Se nos próximos tempos nada mudar, se tudo continuar na mesma, é forçoso concluir que o povo  pouco aprendeu com a tremenda lição destes últimos anos e que está disposto a continuar a alimentar as ilusões que prolongarão no poder os mesmos de sempre ou os seus herdeiros, mais ou menos travestidos.  É cruel reconhecer nesta circunstância  a verdade das palavras de Antero de Quental: “O povo [que] esperar por salvadores e messias, que lhe caiam do céu, continuará na miséria - e será, até certo ponto, merecedor dela”.

Daniel D. Dias