domingo, 15 de setembro de 2013

A propósito de armas químicas



O recuo de Obama na inevitabilidade de atacar um país por este conter no seu arsenal armas químicas, está a ser explicado nos “media” ocidentais de forma muito curiosa. Alguns apresentam o perigoso (e insensato) finca-pé de Obama como uma vitória pessoal. Se não tivesse apresentado um ultimato a proposta russa não sairia da cartola e não ficaríamos a saber que a Síria tem armas químicas. É uma conclusão que visa transformar uma derrota (diplomática pelo menos) em vitória, salvando a face do presidente americano. Conclusão que pelos vistos não convenceu os falcões americanos que acham que Obama é um presidente fraco – ainda “só” matou o Bin Laden -, nem o próprio secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, que, como fiel seguidor da “pax americana”,  já veio tranquilizar os falcões ocidentais com a denúncia (para os próximos dias) de terríveis crimes contra a humanidade cometidos por Assad, que é o mesmo que dizer: Não se preocupem. Mesmo que o Assad se safe da  questão das armas químicas, ou mesmo que ganhe a guerra – promovida pela Arábia Saudita, pelo Qatar, Turquia, e apoiada pela França, EUA,  Reino Unido, entre outros, está lixado: não escapará do discricionário e temível Tribunal Penal Internacional (do qual os EUA estão imunes!)


Esta indignação à volta das armas químicas é no mínimo estranha. Então os senhores jornalistas, em particular os especializados em questões bélicas, não sabem que uma quantidade considerável de países do mundo dispõem de armas químicas e até de armas biológicas (até o sr. General Pinochet tinha um arsenal privativo…), embora uma parte considerável tenha ratificado um tratado (1993) que proíbe o seu uso? Israel, um vizinho da Síria, curiosamente, não ratificou até ao momento esse tratado. Isso significa que dispõe delas, parece mais que óbvio. Mas já não é assunto relevante pois trata-se dum país amigo e de confiança… As suas armas químicas, as suas (prováveis) armas nucleares, estão em boas mãos. E a Turquia, e a democratiquíssima Arábia Saudita, o Iémen, os Emiratos, não as terão também? Bem sei: são países de confiança – civilizados - onde crianças de 8 anos podem ser mortas numa lua de mel… Mas são questões acidentais, nada comparável aos malefícios que o salafrário do Assad, oftalmologista e laico (o único que sobeja na região), faz à sua população.


Seria interessante aproveitar esta onda de indignação mediática, para difundir que os EUA foram os primeiros - e até agora os únicos - que lançaram bombas atómicas sobre populações, que durante anos prosseguiram programas de eugenia, no seu próprio território e até em países terceiros, em muitos casos sem conhecimento das populações, que têm desde sempre usado arsenal químico – urânio empobrecido, bombas de fósforo, o célebre agente laranja, e sabe-se lá que mais – que são causa comprovada de deformidades, de cancro e de outras doenças em crianças, que não param de crescer, designadamente na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão e nos próprios EUA. Estas situações são cuidadosamente camufladas... Podia aproveitar-se também para informar o público que um dos fornecedores de armas químicas da Síria tem sido até há pouco o Reino Unido e que consta que empresas americanas as têm fornecido também (mas aos rebeldes)…

 Daniel D. Dias

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