O recuo de Obama na inevitabilidade
de atacar um país por este conter no seu arsenal armas químicas, está a ser explicado
nos “media” ocidentais de forma muito curiosa. Alguns apresentam o perigoso (e
insensato) finca-pé de Obama como uma vitória pessoal. Se não tivesse
apresentado um ultimato a proposta russa não sairia da cartola e não ficaríamos
a saber que a Síria tem armas químicas. É uma conclusão que visa transformar
uma derrota (diplomática pelo menos) em vitória, salvando a face do presidente
americano. Conclusão que pelos vistos não convenceu os falcões americanos que
acham que Obama é um presidente fraco – ainda “só” matou o Bin Laden -, nem o
próprio secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, que, como fiel seguidor da “pax
americana”, já veio tranquilizar os
falcões ocidentais com a denúncia (para os próximos dias) de terríveis crimes
contra a humanidade cometidos por Assad, que é o mesmo que dizer: Não se
preocupem. Mesmo que o Assad se safe da
questão das armas químicas, ou mesmo que ganhe a guerra – promovida pela
Arábia Saudita, pelo Qatar, Turquia, e apoiada pela França, EUA, Reino Unido, entre outros, está lixado: não
escapará do discricionário e temível Tribunal Penal Internacional (do qual os
EUA estão imunes!)
Esta indignação à volta das armas
químicas é no mínimo estranha. Então os senhores jornalistas, em particular os especializados
em questões bélicas, não sabem que uma quantidade considerável de países do
mundo dispõem de armas químicas e até de armas biológicas (até o sr. General
Pinochet tinha um arsenal privativo…), embora uma parte considerável tenha
ratificado um tratado (1993) que proíbe o seu uso? Israel, um vizinho da Síria,
curiosamente, não ratificou até ao momento esse tratado. Isso significa que
dispõe delas, parece mais que óbvio. Mas já não é assunto relevante pois
trata-se dum país amigo e de confiança… As suas armas químicas, as suas
(prováveis) armas nucleares, estão em boas mãos. E a Turquia, e a
democratiquíssima Arábia Saudita, o Iémen, os Emiratos, não as terão também? Bem
sei: são países de confiança – civilizados - onde crianças de 8 anos podem ser
mortas numa lua de mel… Mas são questões acidentais, nada comparável aos
malefícios que o salafrário do Assad, oftalmologista e laico (o único que
sobeja na região), faz à sua população.
Seria interessante aproveitar esta
onda de indignação mediática, para difundir que os EUA foram os primeiros - e
até agora os únicos - que lançaram bombas atómicas sobre populações, que
durante anos prosseguiram programas de eugenia, no seu próprio território e até
em países terceiros, em muitos casos sem conhecimento das populações, que têm
desde sempre usado arsenal químico – urânio empobrecido, bombas de fósforo, o
célebre agente laranja, e sabe-se lá que mais – que são causa comprovada de
deformidades, de cancro e de outras doenças em crianças, que não param de
crescer, designadamente na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão e nos
próprios EUA. Estas situações são cuidadosamente camufladas... Podia
aproveitar-se também para informar o público que um dos fornecedores de armas
químicas da Síria tem sido até há pouco o Reino Unido e que consta que empresas
americanas as têm fornecido também (mas aos rebeldes)…
Sem comentários:
Enviar um comentário
Não são permitidos comentários que contenham, publicidade e divulgação de site(s), conteúdos maliciosos, ou promoção a violência, o racismo, a discriminação sexual, a xenofobia e ainda linguagem ofensiva, caluniosa ou grosseira.