Henrique Marçal sintetiza num curto post o que é a
preocupação fundamental dos portugueses na atualidade
“A bandeira portuguesa no Castelo de
S. Jorge
O que está em jogo não será a nossa identidade mas sim a dimensão da nossa autonomia! Como vamos nós portugueses dar uma solução duradoura aos nossos problemas? Este quadro político tem de ser reformulado, bem e rapidamente! Sem perda das garantias e liberdades já conquistadas! Haverá engenho para o efeito?”
O que está em jogo não será a nossa identidade mas sim a dimensão da nossa autonomia! Como vamos nós portugueses dar uma solução duradoura aos nossos problemas? Este quadro político tem de ser reformulado, bem e rapidamente! Sem perda das garantias e liberdades já conquistadas! Haverá engenho para o efeito?”
A minha resposta é "sim, mas".
"Sim",
porque o povo português dispõe de massa crítica suficientemente
consistente para superar qualquer crise. Portugal é o país/nação mais antigo da
Europa - dito isto no sentido de que mantém há mais tempo do que qualquer outro
uma unidade cultural, linguística, e territorial invulgar -, o que só por si
representa uma valia fundamental pois demonstra uma capacidade de sobrevivência
exemplar, mesmo nas piores circunstâncias,
"mas"
tem de superar uma idiossincrasia muito peculiar, construída
ao longo séculos, porventura ainda muito antes do estabelecimento da
nacionalidade, que Unamuno, Sérgio, Antero , Eça, Pessoa, entre outros
pensadores, caraterizaram bem.
Interromper a política - ou filosofia -
do "transporte", consagrada na Revolução de 1383 que abre caminho aos
descobrimentos e ao Império, é talvez o passo fundamental.
Portugal habituou-se a resolver os seus problemas essenciais
a partir do exterior ou por influência externa. Dir-se-ia que o crescimento de Portugal
como nação o tornou mais num entreposto político-cultural do que num lugar de sinergias.
Esta característica, que nos transforma no “regresso ao lar”, num povo soturno,
depressivo, abúlico (se calhar o fado –
a canção “nacional” - é algo paradigmático deste facto assinalado exemplarmente
por Unamuno), acaba por nos impedir de aproveitar o nosso lado luminoso e
positivo, que é bem real, e não mitológico como muitos o pintam. Ciclicamente esta
questão é afrontada – o consulado de Pombal é um dos bons exemplos -, mas temos
sempre de recorrer a uma bengala estrangeira (os cruzados a caminho de Jerusalém,
para ganhar a independência, os ingleses para preservar essa independência em
vários períodos críticos, e agora os fundos estruturais da Europa, ou a troika…
Mas há outras). Até a nossa república acaba por ser uma resposta com génese
externa, pois tem seguramente origem no humilhante ultimato inglês de 1890.
Estas bengalas exteriores a que recorremos sistematicamente são
mais pretextos do que necessidades. Acabamos quase sempre por ser nós, quase
exclusivamente, à custa dos nossos recursos endógenos, a resolver as nossas
crises. O factor exógeno – a ajuda que vem de fora - funciona apenas como uma
espécie de catalisador que teve sempre efeitos secundários penalizadores para a
nossa independência.
A intervenção portuguesa no mundo foi o primeiro e decisivo passo
para a globalização. Transformámos a geopolítica do mundo, fomos os primeiros a
proporcionar uma vocação mundial à borracha, à batata, ao café, ao chá, à
canela, mas também à espingarda, à náutica, à ciência e às artes. Por isso não
podemos rejeitar a influência externa. “Mas” temos de usá-la a nosso favor e
não contra nós. Para tanto temos de construir uma elite – no sentido nobre do
terno – que nos liberte dessa síndrome neurótica que uma pequena camada de
privilegiados – sucessora ideológica do partido dos terratenientes derrotado em
Aljubarrota – persiste em cultivar e
fazer ressurgir quando enfraquece, para manter
as suas vantagens.
Daniel D. Dias
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