quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Sim, mas...



Henrique Marçal sintetiza num curto post o que é a preocupação fundamental dos portugueses na atualidade

 

“A bandeira portuguesa no Castelo de S. Jorge

O que está em jogo não será a nossa identidade mas sim a dimensão da nossa autonomia! Como vamos nós portugueses dar uma solução duradoura aos nossos problemas? Este quadro político tem de ser reformulado, bem e rapidamente! Sem perda das garantias e liberdades já conquistadas! Haverá engenho para o efeito?”

 

A minha resposta é "sim, mas".


 "Sim",

porque o povo português dispõe de massa crítica suficientemente consistente para superar qualquer crise. Portugal é o país/nação mais antigo da Europa - dito isto no sentido de que mantém há mais tempo do que qualquer outro uma unidade cultural, linguística, e territorial invulgar -, o que só por si representa uma valia fundamental pois demonstra uma capacidade de sobrevivência exemplar, mesmo nas piores circunstâncias,


"mas"

tem de superar uma idiossincrasia muito peculiar, construída ao longo séculos, porventura ainda muito antes do estabelecimento da nacionalidade, que Unamuno, Sérgio, Antero , Eça, Pessoa, entre outros pensadores, caraterizaram  bem. Interromper a política  - ou filosofia - do "transporte", consagrada na Revolução de 1383 que abre caminho aos descobrimentos e ao Império, é talvez o passo fundamental.

Portugal habituou-se a resolver os seus problemas essenciais a partir do exterior ou por influência externa. Dir-se-ia que o crescimento de Portugal como nação o tornou mais num entreposto político-cultural do que num lugar de sinergias. Esta característica, que nos transforma no “regresso ao lar”, num povo soturno, depressivo,  abúlico (se calhar o fado – a canção “nacional” - é algo paradigmático deste facto assinalado exemplarmente por Unamuno), acaba por nos impedir de aproveitar o nosso lado luminoso e positivo, que é bem real, e não mitológico como muitos o pintam. Ciclicamente esta questão é afrontada – o consulado de Pombal é um dos bons exemplos -, mas temos sempre de recorrer a uma bengala estrangeira (os cruzados a caminho de Jerusalém, para ganhar a independência, os ingleses para preservar essa independência em vários períodos críticos, e agora os fundos estruturais da Europa, ou a troika… Mas há outras). Até a nossa república acaba por ser uma resposta com génese externa, pois tem seguramente origem no humilhante ultimato inglês de 1890.

Estas bengalas exteriores a que recorremos sistematicamente são mais pretextos do que necessidades. Acabamos quase sempre por ser nós, quase exclusivamente, à custa dos nossos recursos endógenos, a resolver as nossas crises. O factor exógeno – a ajuda que vem de fora - funciona apenas como uma espécie de catalisador que teve sempre efeitos secundários penalizadores para a nossa independência.   

A intervenção portuguesa no mundo foi o primeiro e decisivo passo para a globalização. Transformámos a geopolítica do mundo, fomos os primeiros a proporcionar uma vocação mundial à borracha, à batata, ao café, ao chá, à canela, mas também à espingarda, à náutica, à ciência e às artes. Por isso não podemos rejeitar a influência externa. “Mas” temos de usá-la a nosso favor e não contra nós. Para tanto temos de construir uma elite – no sentido nobre do terno – que nos liberte dessa síndrome neurótica que uma pequena camada de privilegiados – sucessora ideológica do partido dos terratenientes derrotado em  Aljubarrota – persiste em cultivar e fazer ressurgir quando enfraquece,  para manter as suas vantagens.


Daniel D. Dias

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