A exibição da desgraça humana é algo
abominável só comparável à atividade dos necrófagos. Mas enquanto estes têm o
respeitável papel de limpar o ambiente de detritos mortos obviando a doenças e
pragas, os “media” que vivem de exibir desgraças e misérias humanas,
comprazem-se em cultivá-las e difundi-las com o exclusivo interesse de lucrar
com isso.
Os pretextos para tão execrável
atividade são a procura culpados das desgraças que vão acontecendo,
demagogicamente acenando com justicialismos típicos das ideologias extremistas.
Na realidade esse jornalixo nunca se preocupou com justiça digna desse nome e
sempre esteve, e continua a estar, ao serviço de interesses retrógrados, que
são a causa direta ou indireta de muitas das desgraças que eles próprios se
dizem denunciadores.
Há umas décadas (1962) fez furor um tipo
de documentarismo precursor deste atual jornalixo. G. Jacopetti, lançou então o
“Mundo cão” que procurava chocar os espectadores mostrando atos degradantes que
se praticavam por todo o mundo. Vendo o seu filme e os que se seguiram nesta
linha, a ideia que ficava é que não havia esperança para a humanidade. Um tempo
depois descobriu-se que Jacopetti chegava a conluiar-se com promotores de
massacres para obter filmagens em direto, no terreno, para lograr o maior
efeito possível, tal como fez e ainda faz a TV brasileira (assaltos, traições,
assassínios em direto, combinados, até talvez, encomendados).
Por cá progridem os “media” sensacionalistas
destacando-se, Correio da Manhã, Sol, TVI, SIC, CMTV, mas sendo comum em quase
todos os outros “media” existentes, até mesmo os públicos, essa “linha
editorial” que explora escândalos e desgraças.
Os fogos florestais estão a ser, como é
óbvio, um imenso manancial para esses necrófagos da informação. Ainda mais
havendo vítimas mortais. A TV especializada a explorar esse tipo de
acontecimentos, em nome dum sentimentalismo hipócrita, de pacotilha, não se cansa
de repetir imagens e notícias chocantes, exibindo em direto o sofrimento de
pessoas e as suas reações emotivas, frequentemente desorientadas ou revoltadas
pelas circunstâncias que estão a sofrer. Chama-se a isto jornalismo? Como se
houvesse qualquer ponta de humanidade na devassa do sofrimento humano.
Mas esta gente que em nome da “informação
livre” presta este tipo de informação, não tem apenas por objetivo ampliar
audiências. Procura também promover as forças do retrocesso político que agora
estão na mó de baixo. Com as suas “figuras públicas” – que cultivam meticulosamente
- e os seus comentadores “especializados”, a pretexto da justiça, da caridade e
da solidariedade humana, procura semear a dúvida na opinião pública e criar
condições para minar a via política que está a ser perseguida pela atual maioria,
explorando as suas eventuais fragilidades e contradições, não hesitando mesmo
em fabricá-las.
É curioso que os críticos da resposta
das atuais autoridades à catástrofe dos incêndios tem como referência no seu discurso
os “últimos 40 anos”. Parece um lapso freudiano: dá ideia de que as desgraças
são coisa que poupou o “antigo regime” e que são específicas do atual regime
democrático…
Ontem foi anunciado, dir-se-ia entusiasticamente,
a queda dum avião de combate aos fogos. A notícia foi desmentida de imediato
pelas autoridades que estão a operar mas alguns jornalistas que recebiam essa
informação ficaram inconsoláveis – “fora de pé” como disse sentir-se a
jornalista da SIC - http://sicnoticias.sapo.pt/especiais/tragedia-em-pedrogao-grande/2017-06-20-Protecao-Civil-admite-buscas-mas-nao-confirma-queda-de-aeronave.
Pudera, não acertaram na desgraça e lá se foi uma oportunidade de aumentar audiências.
Nos nossos “me(r)dia” o “Mundo cão”
parece não ter fim à vista.
Daniel D. Dias
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