terça-feira, 14 de julho de 2015

Os fracassos da esquerda europeia e o renascimento alemão



Os atuais acontecimentos da Grécia evidenciam que é a “realpolitik” que domina. A ideia de ética – democrática ou outra - está totalmente ausente, ou, se se quiser, está totalmente subordinada aos interesses geoestratégicos dominantes. É óbvio que o que está em jogo é aproveitar a Grécia para dar uma segunda vida à direita que subiu ao poder com a crise na Europa, designadamente em Portugal e na Espanha, e para mostrar quem manda.  O favorecimento da extrema direita fascista que esta política promove, em toda a linha e por todo o lado, parece não preocupar minimamente os eurocratas que controlam – sem escrutínio democrático! – as cada vez mais ineficazes instituições europeias. O que é preciso é conservar o poder, para construir velhos sonhos imperiais… Antigos fantasmas renascem dum passado não assim tão distante.

As pessoas vivem distraídas e não percebem que o que se passa é um certo renascimento alemão que há muito vem a ser preparado. Já nos anos 70 a Alemanha Ocidental exibia as suas aspirações de dominância – por exemplo em projetos internacionais, ou em grandes feiras - que só não iam mais longe por causa das limitações que a sua zona leste “ocupada” implicava. Com o providencial desmantelamento da URSS, a troco de nada – traindo sem vergonha promessas feitas a Gorbachev – a Alemanha ganha um novo fôlego e duma penada inicia o controle da Europa. Aproveita a morte de Tito para iniciar o desmantelamento da Jugoslávia, abrindo ligações aos velhos aliados germanófilos – Eslovénia e Croácia. A guerra dos Balcãs é um dos grandes crimes do século XX, com responsáveis bem definidos ainda no ativo. Uma guerra apoiada nos dinheiros e estratégias alemãs, conduzida pela NATO, numa aliança espúria EUA-Alemanha.

Logo após a unificação alemã (paga com dinheiros europeus, é bom que se recorde, na altura os deficits excessivos não constituíam problema), a Europa Social deixou de interessar. Só importava mostrar a superioridade do “modelo social europeu”, enquanto o “Bloco de Leste” era uma potencial ameaça e um concorrente. Valia tudo: até um Papa foram desencantar no Leste para minar as fragilidades da decadente URSS… A partir do momento em que fábricas gigantescas do leste passaram para mãos alemãs e americanas a troco da manutenção dos postos de trabalho, em que uma nova “numenklatura” russa passou a enviar para os bancos americanos e ingleses os esbulhos feitos na ex URSS, o estado social europeu deixou de ser uma prioridade. O Euro, feito à medida para a Alemanha – até tinha o mesmo valor do marco alemão – era a peça que faltava para dominar a Europa. Claro havia a França, a Itália, e um pouco o Reino Unido, mas isso são obstáculos que os alemães já estavam habituados a contornar. Com a ajuda dos democratas cristãos nada há que não se consiga. Mais tarde ou mais cedo a autoridade germânica haveria de se impor. Percebe-se agora que o  fantasma do “Lebensraum”, - do “espaço vital”  alemão -,  nunca morreu nem foi esquecido… Só mudaram as táticas muito com a ajuda do “amigo americano”. Anos a fio prepararam os povos europeus com os seus milagres económicos e tecnológicos, exibiram a sua tenacidade e disciplina, e treinaram massivamente “gauleiters”  que agora estão por todo lado, nesta Europa, a exercer o poder em nome da Alemanha. Genialidade, não há dúvida, duma Alemanha, que, talvez ninguém já perceba, continua oficialmente a ser um país ocupado pelos vencedores da Guerra – EUA, UK e a França. Afinal a Alemanha só foi libertada pelo principal vencedor da Guerra - a Rússia -, mas parece que esse facto se tornou num incentivo para colocar de novo esse pais na categoria de inimigo principal… Estarão esquecidos da história?

A Grécia foi obviamente humilhada, pelas instituições europeias às ordens da Alemanha, mas na realidade quem foi verdadeiramente humilhada foi toda a Europa e em especial a esquerda europeia. Esquerda, que afinal, acaba por colher os resultados da sua inabilidade e contradições crónicas. Em 60 anos de pós guerra, nunca encontrou plataformas comuns de ação, nunca demonstrou uma nesga da sua natureza internacionalista. A direita da Europa governa à vontade pois encontra sempre formas de sobreviver à custa duma esquerda que promove a divisão entre si, que empurra setores sociais pouco politizados ou amplas camadas das classes médias para os equívocos braços da direita.

Com Marx nasceu a ideia de que, conhecendo a “mecânica” do processo histórico, a inevitabilidade de esperar que um modo de produção se esgote para iniciar um outro mais avançado, poderia ser antecipado. Para tanto bastavam criar organizações políticas (de esquerda) que entendessem esta realidade e que, através de alianças hábeis, tomassem o poder e desse modo lograriam abreviar os sofrimentos da humanidade. Mas não foi isso que temos assistido, pelo menos por aqui, na Europa. Desde há anos que se impunham posições comuns, coordenadas, das organizações de esquerda. Mas nada vemos de substancial. Pelo contrário: assistimos a uma luta feroz entre organizações de esquerda para reduzir a influência de outras organizações congéneres nas eleições em que participam… Onde para o internacionalismo, a solidariedade, a superioridade moral da esquerda? Quem se lembra das “frentes populares” que atrasaram os avanços dos nazistas e que, em alguns casos, os derrotaram?

É caso para dizer: com as atuais esquerdas as direitas podem fazer o que quiserem. Na América Latina parece que as esquerdas começaram a aprender alguma coisa mas aqui na Europa, tarda, tarda. Que será preciso para aprender? Uma nova guerra?


Daniel D. Dias

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Democracia: Verdades e falsidades correntes



É sabido que a ideia da democracia fascina porque é entendida como o regime das liberdades e da igualdade. Há décadas que se divulga esta ideia de modo tão simplista e sistemático que o público já a interiorizou sem discussão. Em democracia (pelo menos formalmente) todos têm mais direitos e garantias de tratamento igualitário do que em qualquer outro regime. Mas como explicar que as democracias vigentes registem tantas e tão enormes desigualdades entre os seus cidadãos, não se distinguindo frequentemente dos regimes não democráticos? A explicação mais comum é que tal facto é consequência da “livre iniciativa” que é um dos principais apanágios da democracia. Esta apregoada característica da democracia é pródiga a gerar oportunidades e em consequência, são favorecidos os mais audazes, os mais criativos, os mais trabalhadores… Naturalmente, os que não arriscam, os que não têm criatividade, os que trabalham pouco, são penalizados.

Mas será assim mesmo? As diferenças de qualidade entre humanos - uma convicção tão cara aos adeptos das “raças superiores” ou do “darwinismo social”, que, descarada ou sub-repticiamente, continua a proliferar -, será tão real que as desigualdades que se registam no mundo, e que não param de se agravar, são mesmo resultado dessa “livre iniciativa”, que está aí, disponível ao alcance de todos?

Pode admitir-se “de jure” que “os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos” – como proclama o artigo 1º da Declaração Universal do Direitos do Homem, adotada pelas Nações Unidas em 1945 -, mas nunca nascerão “de facto” em condições de igualdade. Uns nascem de famílias estruturadas; outros nascem sem pai, ou são abandonados à nascença. Uns nascem num ambiente cultural estável, enriquecedor; outros são filhos de famílias incultas ou analfabetas. Uns nascem em casas higiénicas e confortáveis, outros nascem em pardieiros insalubres e inseguros. Uns já são ricos quando nascem; outros são filhos de desempregados que vivem na miséria… Por isso a ideia de que basta haver democracia para haver igualdade é profundamente hipócrita e falsa. Para que a democracia seja, de facto, o “governo do povo e para o povo” e que assegure “o maior bem para o maior número”, é preciso que não se limite ao sufrágio universal e à igualdade perante a lei. É preciso também que crie condições de igualdade à partida. Seja através do Estado Social, seja através doutro qualquer modelo político humanista, é imprescindível que a democracia assegure também as condições base da existência – segurança, alimentação, saúde, educação, habitação – de forma generalizada e igualitária. Só depois deste pressuposto assegurado é que se poderá afirmar que existem condições para o exercício duma verdadeira competividade.

Todavia os seres humanos não são de facto iguais. As doutrinas que até agora promoveram o igualitarismo deram mau resultado. Remunerar por igual o que se esforça e o preguiçoso não estimula o aperfeiçoamento nem a dedicação ao trabalho. Cada ser humano é um caso, e como tal deve ser tratado. As características individuais devem ser cuidadosamente enquadradas por forma a promover todo o potencial de que cada ser humano portador. As especificidades dos seres humanos são desafios estimulantes e enriquecedores. Se as condições à partida estiverem asseguradas, os potenciais individuais surgirão e uma competitividade genuína e saudável nascerá daí. Seguramente destacar-se-ão os melhores e alguns ficarão para trás, mas esta clivagem, será natural, aceite por todos. Não aportará invejas, frustração, conflitos sociais, como os que se assistem na atualidade, um pouco, por todo o mundo.

A democracia é importante – fundamental mesmo - mas não deve ser usada para mascarar realidades. Por exemplo, comparar os sucessos de países ricos com os insucessos de países pobres atribuindo-os às suas práticas democráticas, pode ser um grande equívoco. Mas não há dúvida: A democracia deve ser aprofundada e apoiada num ambiente social materialmente favorável, para dar resultados. Poder-se-á dizer que uma democracia que não promova desenvolvimento é uma falsa democracia ou uma democracia em risco de deixar de o ser. Do mesmo modo se poderá afirmar que um desenvolvimento que não promova a democracia, que não a melhore ou se oponha a ela, é um desenvolvimento socialmente frágil, potencialmente conflituoso.


Daniel D. Dias

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Umberto Eco e as redes sociais



Umberto Eco afirmou recentemente: "As redes sociais vieram dar voz aos imbecis" que antes "apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a colectividade". E Eco acrescentava, lamentando: “Normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel”.


Francamente não vejo grande diferença qualitativa entre as intervenções nas redes sociais de Prémios Nobel, como as de Obama (que é Prémio Nobel), ou de doutores como Cavaco Silva ou César das Neves, e a rudimentar "vox populi" dos muitos iletrados imbecis que andam por aí igualmente a dizer disparates. Terão estes privilegiados (letrados) mais direito de proferir disparates que qualquer imbecil iletrado? Pelo menos em matéria de disparates sejamos democráticos...


Para mim o mais preocupante é o tremendo poder manipulador que as redes sociais põem ao dispor de especialistas que as usam para causar prejuízos deliberados a milhões de pessoas. Basta pensar nas "Primaveras Árabes" ou nas mentiras que se difundem na luta contra o terrorismo.


Resumindo: Contrariamente a Eco, o que me preocupa não são os idiotas que usam as redes sociais. O que me preocupa são os letrados e inteligentes cuja missão parece ser usar as redes sociais para criar e depois manipular cada vez mais idiotas...

Daniel D. Dias

domingo, 7 de junho de 2015

Os estranhos critérios da Justiça portuguesa


A propósito do fim do ano escolar de alguns dos meus netos, passei uma parte do dia de hoje a visitar exposições, eventos, e outras atividades lúdicas e culturais organizadas por alunos e professores, numa daquelas escolas reconvertidas - modernizadas - no âmbito do programa Parque Escolar promovido pelo anterior governo, programa que o atual governo diabolizou e quase extinguiu. Foi um dia inesquecível, fascinante, algo que me orgulho de ver e que, estou certo, não deixou ninguém indiferente, alunos, pessoal docente, familiares, que por lá passaram.
De repente ocorreu-me esta reflexão: o principal responsável por este indiscutível progresso, está preso há vários meses, embora sem ter sido acusado de nada em concreto, e uma das suas ministras da educação foi entretanto condenada, acusada duma muito estranha "prevaricação". Entretanto, hoje ainda, tomo conhecimento, de que João Rendeiro, responsável, esse sim indiscutível - perguntem aos milhares de credores que foram espoliados - pela falência do BPP (Banco Privado Português), foi absolvido dos graves crimes de que estava acusado...
É caso para perguntar: por que gaita de critérios se orienta a justiça portuguesa? Estranhos critérios sem dúvida: aleatórios, suspeitosos, quase até surrealistas.
Daniel D. Dias

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Rogério e o Benfica



Poderá afirmar-se, com pouco ou nenhum exagero, que a vida de Rogério Narciso, ou simplesmente, de Rogério, – que ainda há dias completou 63 anos - surgiu e sempre decorreu numa espécie de ligação simbiótica com o Sport Lisboa e Benfica. Certamente que o seu caso não é único neste país que tanto se identifica com este clube. O Benfica, nasceu, cresceu e consolidou-se como grande clube desportivo, porque cedo soube identificar-se com a idiossincrasia – a alma –  da grande maioria dos portugueses, da qual recolheu a sua generosa  energia, mas também graças à iniciativa, à resistência e ao engenho de inúmeros “carolas” e animadores – como aliás é tradição entre nós. Carolas e animadores dos quais Rogério é, nesta altura, um exemplar clássico.

O Benfica transformou-se num fenómeno especial, mesmo a nível mundial. A singular originalidade de se ter identificado com o povo português tornou-o numa referência até para aqueles que em Portugal não são benfiquistas. E o seu exemplo frutificou um pouco por todo o lado - no pais e até no estrangeiro -, mesmo entre os seus adversários.
O Benfica é – ainda hoje - uma espécie de “alter ego” para muitos portugueses, e há razões objectivas para que assim seja. Especialmente nos três primeiros quartos do século passado, a vida foi particularmente difícil para o povo português, que teve de trabalhar duramente para lograr sobreviver. Enfrentaram-se várias guerras e a miséria crónica, que assolou o país  por décadas, empurrou os portugueses para a emigração que era feita em condições penosas para países distantes e por vezes hostis.  A gente portuguesa vivia carenciada por algo genuíno e próprio, que lhe devolvesse o orgulho nas suas raízes, que lhe ajudasse a suportar as inúmeras humilhações, saudades e desgostos, que tinha que suportar. Algo que lhe pusesse em alta a sua autoestima continuamente debilitada pelos longos períodos de dificuldades, pela depressão associada à pobreza, pelo sentimento de marginalidade, e até de humilhação que teve de suportar. O Benfica foi o fenómeno que ressuscitou “magriços”, forças e orgulhos esquecidos e ajudou os portugueses a suportar as durezas da vida. Houve, claro, outros fenómenos, estimulantes, aglutinadores, mas nenhum teve a projeção, a extensão  e a dimensão que o Benfica atingiu.

Com a melhoria das condições de vida, com as naturais mudanças que o êxito e o progresso sempre trazem, o Benfica foi mudando especialmente nas últimas décadas. Para um leigo como eu, sobressaem especialmente as mudanças de imagem, notadamente a da “Catedral”. As velhas – mas grandiosas – instalações da antiga Catedral, mudaram. As atuais são mais feéricas, mais modernas, mais confortáveis, mais funcionais. Faziam falta, mas talvez se tenha  diluído em modernidade alguma da antiga mística – ou da reverência - que vinha lá dos tempos do Eusébio, do Coluna, do Águas. O velho estádio era também um símbolo do Benfica, da sua grandiosidade, da sua mística, dessa idiossincrasia que atrás falei: foi construído por subscrição dos seus sócios, escudo a escudo, por sócios que ofereciam saquinhos de cimento para as obras. Não é mito: Foi mesmo assim.
Mas não houve só mudanças de imagem. Houve um tempo, não muito distante, em que os jogadores do Benfica eram exclusivamente portugueses. Não se tratava de qualquer manifestação de chauvinismo. Nesses tempos não se pensava assim. Gostava-se de apostar no que era português, mesmo que fosse português com origem nas ex- colónias, o que era algo mui “sui generis” e original naquela época pois nunca “metia política”, mesmo quando era evidente que a política andava a rondar por lá. Parecia ser isto que o povo gostava (ou que precisava de gostar) na altura. E acho que foram bons tempos. Ainda hoje, nas antigas colónias, tanto quanto sei, abundam os “doentes” pelo Benfica…

O Benfica sempre foi “uma casa grande” onde pobres e ricos coabitavam sem grandes conflitos. Acho que não exagero se falar numa solidariedade benfiquista, feita de convívio, de amizade e muita, muita, carolice.
É por isso que hoje me lembro do Rogério - do Homem da Bandeira -  herdeiro do saudoso Valentim. Deram-lhe o nome, lá no Alentejo profundo onde nasceu, do antigo astro do Benfica – Rogério “Pipi”. Naturalmente para puxar a sorte que escasseava e que ainda assim não lhe evitou os caminhos da emigração. Mas, no meio das peripécias duma vida aventurosa e difícil,  Rogério sempre apoiou o Benfica: levou-o, reproduziu-o, por todo o lado por onde passou. Acompanhou o Benfica - sempre a suas expensas -, por todo o lado, animando, dando nas vistas, com a sua gigantesca bandeira (que talvez tivesse  contribuído, sabe-se lá,  para as várias operações à sua coluna doente). Nunca pediu nada ao Benfica, pois, a sua recompensa  sempre foi, e continua a ser, o convívio com os adeptos, as vitórias que o clube lhe vai dando, e, sobretudo  a fé e a genica que o Benfica sempre lhe transmitiu.

Conheço o Rogério há muitos anos e sei que ultimamente as coisas não lhe têm corrido de feição. A crise? Claro . A crise. Mas principalmente a saúde. A sua saúde tem vindo a declinar. As costas, os diabetes... Entretanto adoeceu-lhe a mulher e a netinha também andou com problemas.  Os negócios esses não têm corrido bem. Mas a luta não parou e no meio disto tudo avançou com novas iniciativas. Mas agora surgem as más notícias para ele. Podem não ser mesmo verdadeiras más noticias mas são notícias daquelas que assustam. Entendem? Nesta segunda feira Rogério ia saber resultados mais concretos… Definitivos, talvez, sobre o seu estado de saúde. Não voltei a falar com ele desde domingo. Sei que estava preocupado com o assunto, expectante, mas, apesar disso, continuava a fazer força, a puxar os outros, para a frente, para a luta…

O Benfica continua glorioso e este ano reforçou a sua aura de campeão. A festa podia ter corrido melhor não fosse alguns incidentes infelizes, cuja responsabilidade não pode ser atribuída ao clube. Mas houve festa e gala. Rogério ficou contente, e, claro está, também festejou. Mas a nível familiar. O Benfica renovado, não se lembrou do Homem da Bandeira; nem um convite para os festejos lhe mandou … E há muito que não o faz.

Sei que o Rogério não é homem para pensar mal quanto mais para dizer mal do Benfica. Por isso não se queixará, nem dirá nada. Mas tenho a certeza que está triste. Sei que se lembra de outros tempos em que o Benfica parecia mais fraterno, mais de acordo com a sua tradição. Um tempo em que as pessoas se lembravam dele, se preocupavam em saber se estava vivo… E é por isso que escrevi esta já longa nota.

Faço votos para que as notícias desta segunda feira para o Rogério, tenham sido boas e aproveito para perguntar:
O Benfica sem o Homem da Bandeira  (e provavelmente sem muitos outros homens como o Rogério, porque o Benfica é muito grande) será o mesmo Benfica? Bem sei que as renovações mais do que necessárias, são inevitáveis. Mas não deverão preservar o passado e sobretudo a afetividade que une os sócios? Ou o caso do Rogério não poderá ser um indício de que o Benfica tende a tornar-se em mais um clube empresa, como vai acontecendo por esse mundo fora. Um clube avançado, claro, mas sem chama verdadeira, com uma mística trabalhada por estudiosos e preservada em locais especializados , que cultiva os afetos a que obrigam a responsabilidade social das empresas? Espero que o Benfica avance mas que saiba conciliar as coisas e preservar os amigos. Afinal modernidade e tradição não são incompatíveis.

Bem haja Rogério. Votos de rápidas melhoras.


Daniel D. Dias

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Palermas: Palmiras há muitas!



Afinal a política – USA/OTAN/CE - de apoiar “rebeldes moderados” e de continuar a atacar o que resta dos regimes laicos da região – no caso, o da Síria de Bashar al Assad - , vai dando os seus resultados. Nos últimos tempos o Exército Sírio vai perdendo posições estratégicas e até já sofre ataques na capital Damasco coisa que há muito não acontecia. O proto Prémio Nobel da Paz, Obama, (o tal que antes de o ser já o era) deve exultar com a genialidade evidente da sua geoestratégia. Agora o “estado Islâmico” capturou a cidade de Palmira – património histórico da humanidade, até agora bem preservado pelo ditador oftalmologista laico, Assad – e ponto estratégico e militar crucial na região. Claro, vai certamente haver “danos colaterais”, entre eles a possibilidade de ser destruída uma cidade milenar, única no mundo. Mas para povos que têm com referência cultural maior, cidades como Las Vegas, construídas também elas em desertos para amantes de lupanares exóticos, que importância terá isso? Talvez no final da destruição de Palmira ainda reste algum espaço para construir uma disneylândia “a la mode” do califado e de Erdogan, compatível com as exigências culturais dos colonatos do sr. Netanyahu…

É caso para dizer: vale mais um jhiadista “de confiança” na mão que um Assad laico pelas redondezas.

Palermas: Palmiras há muitas… E “Je souis Palmira”! Não viram já?

Daniel D. Dias


terça-feira, 19 de maio de 2015

Exames e culto da desigualdade



A ideia de que as crianças progridem mais – se tornam mais competitivas - se cedo forem habituados à clivagem dos exames, tal como era feito há cinquenta anos atrás, está a ser introduzida hipócrita e sub-repticiamente, sob o pretexto de combater o “facilitismo” e as famosas passagens administrativas. Na verdade o modelo que está a ser reintroduzido só vem agravar o problema da divisão da sociedade entre escolarizados e não escolarizados, como se isso fosse algo justo, natural e inevitável. Os exames seriam uma forma de introduzir mais justiça no sistema, mas não é verdade. Este modelo, comprovadamente, aumenta o abandono escolar e não resolve o combate às passagens administrativas nem garante que o facilitismo não continue a proliferar.

 É preciso entender que por de trás desta clivagem em fase de ensaio estão todas as outras que justificam a existência “natural” duma sociedade constituída por classes. A ideia (laica e republicana) do igualitarismo humano fica reduzida à sua expressão simbólica e “espiritual”,  tão paradigmaticamente expressa no clássico “somos todos iguais (ou irmãos) em Cristo”…  Em tudo mais, claro está,  somos desiguais – e devemos, pelos vistos, a continuar a sê-lo…

O primeiro preceito – e o mais sagrado – da Declaração Universal dos Direitos do Homem (uma herança da Revolução Francesa) é a de que, “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Nada mais  indiscutível e verdadeiro se todos os homens dispusessem também - à nascença - das mesmas garantias de acesso ao alimento, à habitação, aos cuidados de saúde, à segurança (familiar e societária) e à educação. Infelizmente sabemos que não é assim e é por isso que o Estado Social – ou o que resta dele - continua tão indispensável pois é o único instrumento social que colmata parte das desigualdades sociais mais gritantes com que a maioria das pessoas nasce.

É bom de ver que uma criança, mal alimentada, que vive num ambiente cultural pobre, que faz parte duma família desestruturada, que não tem condições adequadas para brincar ou para estudar, não está nas mesmas condições do que uma criança que vive num ambiente dito normal. Por outro lado há que dizer que a verdadeira igualdade só pode concretizar-se se for reconhecido que a essência da natureza humana é a singularidade. Cada ser tem as suas necessidades específicas, o seu potencial a realizar e é nisso que consiste a igualdade humana. É por isso que nos desportos se joga por escalões, que há campeonatos para homens e para mulheres, que há olimpíadas para “normais” e para “deficientes”. É por isso que as performances obtidas nos exames podem ser tão enganadoras.

O ensino pode ter escalões, classificações, mas nunca deve dar origem a classes, como acontecia no passado. As passagens de ano podem ser condicionadas, “esticadas”, diferidas, mas nunca consubstanciadas. Se uma criança “está a ficar para trás”- se alguém deu por isso -, que se investiguem as razões e se resolva o problema. Se não chegar um professor ou um assistente para a tarefa, que se recorram a dois. Se o problema não estiver na escola, mas na casa ou na família (se houver casa ou família), que se recorra a assistentes sociais, ou a outros especialistas. Mas que não venham com a desculpa de há falta de recursos. Recursos são o que mais abunda por aí. Não falta gente desocupada, com qualificações, que precisa de emprego. É bom que se tenha já em vista que as perspectivas de emprego no futuro – se houver futuro – com mais ciência ou menos ciência, é o de tomarmos conta uns dos outros...

Aos fóbicos da economia, aos que se preocupam com os custos destas operações, sugiro que pensem nisto: Sempre será melhor gastar dinheiro procurando melhorar a qualidade das pessoas do que gastá-lo em armas e sistemas repressivos para combater organizações criminosas ou delinquentes que nunca pararão de crescer se as coisas continuarem como estão na atualidade.

As crianças precisam de melhorar as suas qualidades cívicas, a sua interação com o mundo real, tal como aprofundar os seus conhecimentos em matemática e português. Fazer testes (exames) – não exclusivos à matemática e ao português - para estimular a aprendizagem podem ser bons instrumentos desde que não se limitem a essas disciplinas e não sejam um disfarce para introduzir um ensino estratificador de classes sociais. Se houver diferença nas crianças, diferença resultante de limitações psicofísicas, os índices ou classificações assinalarão as diferenças, sem necessidade de relevar diferenças de classe. A natureza dos seres vivos é realizar o máximo do seu potencial intrínseco, seja ele de que natureza for. A escola serve especialmente para ajudar a concretizar esse objetivo e não para medir níveis de memória ou habilidades especiais, que, frequentemente disfarçam mediocridades mais do que evidenciam qualidades.

E já agora: porque se vai desinvestindo nas artes – especialmente na música – mas também nas performativas e plásticas? Não é também mais um sinal (negativo) de que um ensino classista, discriminador, um culto da desigualdade, está em crescendo?


Daniel D. Dias