domingo, 3 de maio de 2015

MERDRA!



Sinto que as pessoas desanimam, que se resignam a aceitar toda a espécie de comportamentos abusivos, desumanos, embora continuem a manifestar alguma revolta quando são ”abanados” por qualquer coisa expressiva dessa realidade. Muitas atribuem  esse estado de coisas à política, à má qualidade dos políticos, à (inevitabilidade) da corrupção, a desonestidade (intrínseca) do ser humano, à eventual decadência dos costumes, etc., etc.  Mas raramente vão além deste patamar.

Perdoem-me o desabafo mas é mesmo isto o que sinto:

As pessoas – a sua maioria pelo menos – estão sempre disponíveis para prestar toda a atenção a “fait divers” chocantes, para se indignarem com acidentes aparatosos, crianças ou animais ternurentos a ser mal tratados, denúncia de roubos, manifestações de violência doméstica, uso abusivo e descarado de bens públicos, atos de crueldade cometido por terroristas, comportamentos aberrantes, entre muitos outros. Quanto mais chocantes e brutais, maior a atenção dispensada. Até parece haver um certo gozo doentio na observação destes casos que submergem os “media” a toda o momento. Porém na prática não parecem assim tão sensíveis. Borrifam-se para  entender as origens – as causas - desses fenómenos. Não só não fazem o mais pequeno esforço para descobrir a génese dessas desgraças, como  se contentam  com as explicações simplórias que lhe são fornecidas por “especialistas” que as tratam como crianças pequenas.

Na prática as pessoas estão-se nas tintas para as causas dos problemas. É sabido que na génese da maioria dos problemas está a desigualdade de oportunidades à partida, os tratamentos discriminatórios que persistem, a educação insuficiente e desadequada, a falta de participação nas instituições públicas, a falta de organização ou a gestão deficiente. Colher informação séria (também a há disponível na internet) investigar a génese dos acontecimentos, interessar-se pela história – não por “histórias”-, avaliar criticamente o que se lê, talvez ajudasse a criar um público com massa crítica  suficiente para influenciar os acontecimentos negativos que nos assolam e eventualmente revertê-los… Conhecer é o primeiro passo para resolver qualquer problema – não é verdade? E talvez este comportamento ajudasse “a animar a malta”: Sem ânimo não chegamos a lado nenhum…

Mas a vida já é tão aborrecida, não é verdade? Porquê gastar o nosso tempinho a tentar perceber qual é a génese da corrupção ou da violência – doméstica ou de outra qualquer? Um artigo com mais de cinco linhas não e já um excesso?  Que adianta saber as razões porque elegemos políticos que sistematicamente nos desiludem? No final não vai ficar tudo na mesma?

É caso para dizer: MERDRA!
(Não digo MERDA para não ofender ninguém…)

Daniel D. Dias

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Da dificuldade em mudar de opinião



Espantam-se muitos com a aparente dificuldade que as pessoas manifestam em mudar de opinião – para corrigi-la eventualmente - face a repetidos resultados insatisfatórios. Não se apercebem que quase toda a gente, muito antes de aderir a uma ideia, já está modelado por ela, disponível para aderir ao seu conteúdo sem lhe obstar grandes exigências críticas. Porque é isto assim? Haverá outras razões  mas a principal  talvez seja, a comodidade, o conforto que proporciona sentir que nos identificamos com um determinado grupo que pensa de uma certa forma. Deste modo não corremos o risco de ficarmos a defender ideias sozinhos, por exemplo, a vociferar que o rei vai nu, arriscando a sermos tomados por  loucos.



Daniel D. Dias

domingo, 29 de março de 2015

Quem tem medo do lobo mau?



“Uma coligação de movimentos rebeldes e grupos próximos da Al-Qaeda conquistou a cidade de Idlib, no nordeste da Síria. É a segunda capital de província que o regime perde desde o início do conflito, há quatro anos”, noticia hoje a Euronews com mal disfarçado regozijo. Afinal a estratégia do Prémio Nobel da Paz, Obama, está a resultar: O inimigo principal, o malvado oftalmologista laico Assad, continua a ser perseguido para ver se tem um fim parecido com o de Kadaffi, outro malvado. O pretexto já não são armas químicas. Agora é o “estado Islâmico”, concorrente da Al-Qaeda,  que anda a dar muito nas vistas com as suas carnificinas mediáticas.

São estes os “rebeldes moderados”, que os EUA, EU e seus aliados apoiam sem reservas, com armas, munições, bombardeamentos, cobertura mediática e dinheiro. Afinal a Al-Qaeda nem é assim tão má! Se o fosse não estaria a ser apoiada em vários países, designadamente na Síria e na Líbia onde até decorrem negociações para um “governo de unidade”. No Yemen, onde a “Primavera Árabe” não está a correr a contento da Arábia Saudita, este indefectível aliado dos EUA não hesitou em invadir esse país, começando por bombardear massivamente as populações, como é tradicional, apoiando e apoiando-se em milícias da Al-Qaeda que no terreno combatem a rebelião Houthi.  A manifesta ilegalidade desta ação está agora a ser colmatada com um apoio arrancado à pressão na sempre prestável “Liga Árabe”. Entretanto, a chamada “comunidade internacional”, os EUA, a EU, os infatigáveis militantes anti terroristas, Obama, Cameron, Hollande, refugiam-se numa estranha neutralidade colaborante e vão alimentando a opinião pública com a amplas cerimónias de fervor anti terrorista…  Não faz tudo isto lembrar a história dos três porquinhos e do lobo-mau? Afinal, quem tem medo lobo mau, ou seja, quem leva a sério o terrorismo?



Daniel D. Dias

segunda-feira, 16 de março de 2015

Brasil



A América Latina foi até há pouco o “pátio traseiro” dos EUA*, onde tudo parecia estar ao serviço e sob controlo desta superpotência. Mas as coisas começaram a mudar nas últimas décadas: Uma nova consciência das pessoas e uma geração de líderes reformadores vieram tornar possível colocar os enormes recursos desta região ao serviço dos seus povos e não apenas ao serviço de classes muito reduzidas, como sempre aconteceu. Pode apontar-se que esta ação tem sido desenvolvida, em alguns casos, com alguma inépcia e noutros, de forma pouco clara. Ainda assim é inegável que as enormes desigualdades existentes diminuíram e que os resultados positivos em termos sociais são bem concretos: a fome, a doença, o analfabetismo e a miséria extrema, têm sido - pela primeira vez em 500 anos -, consistentemente combatidos.

Esta realidade configura um pecado mortal, uma ousadia jamais admitida, que os EUA e seus aliados sempre rejeitaram sem contemplações. É daqui que decorrem as sucessivas campanhas orientadas contra vários países da região – Argentina, Venezuela, Brasil, entre outros. As versões que os “media” espalham pelo mundo - é sabido que os EUA dominam os “media” mundiais – são parciais, preconceituosas, pseudo moralistas e destorcem os factos. Tem sido a forma habitual para preparar o terreno para ações mais musculadas – revoluções coloridas, primaveras árabes, etc. - como as que temos vindo a assistir no Médio Oriente, no Norte de África, nas vizinhanças da Rússia e da China.

As manifestações de ontem no Brasil fazem parte destas campanhas que em muitos aspetos lembram o Chile dos tempos de Allende antes do golpe de Pinochet. Havia por lá muita gente, nutrida e bem parecida, a bater tachos e até a reclamar o regresso da ditadura militar…

O vídeo que se segue ajuda a perceber de forma simples e bastante detalhe o que está agora em causa no Brasil.

https://www.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DnOaff79Tpqg%26feature%3Dyoutu.be&h=EAQFNF9G3
Texto original em inglês
http://journal-neo.org/2014/11/18/brics-brazil-president-next-washington-target/

Daniel D. Dias


*“Há uma resistência muito significativa contra o assalto neoliberal. A mais importante verifica-se na América do Sul, é espectacular. Durante 500 anos, a América do Sul sofreu a dominação das potencias imperiais ocidentais, a última das quais os EUA. Mas nos últimos 10 ou 15 anos começou a romper com isso. Isto tem muita relevância. A América Latina foi um dos sócios mais leais dos consensos de Washington, das políticas oficiais.”
Noam Chomsky, in entrevista de Miguel Mora “Syriza y Podemos son la reacción al asalto neoliberal que aplasta a la periferia”, de 8 de fevereiro de 2015

http://ctxt.es/es/20150205/politica/286/%E2%80%9CSyriza-y-Podemos-son-la-reacci%C3%B3n-al-asalto-neoliberal-que-aplasta-a-la-periferia%E2%80%9D-Internacional.htm

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Treta hipócrita ou hospital de loucos?



Salta aos olhos que o “Estado Islâmico”, que tanto preocupa a "comunidade internacional", não vive do ar. A sua complexa logística, o seu sofisticado equipamento bélico e de comunicação, a alimentação e municiamento das suas tropas, são caros e não podem ter origem numa Síria ou num Iraque em chamas.

É cada vez mais evidente que a placa giratória do tráfico que sustenta o ISIS se situa na Turquia que é um dos mais importantes membros da NATO. Segundo Assad*  na entrevista que concedeu a um jornal checo no dia seguinte aos atentados de Paris http://www.sana.sy/en/?p=25117,  o Qatar e a Arábia Saudita financiam o “Estado Islâmico”, que conta com outros apoios significativos designadamente da Jordânia e de alguns partidos libaneses. A França já veio reconhecer que armou os terroristas do ISIS http://g1.globo.com/mundo/siria/noticia/2014/08/franca-repassou-armas-rebeldes-sirios-ha-varios-meses.html. Israel também “dá uma ajudinha” ao ISIS atacando o exército Sírio pelos ares. É uma espécie de força aérea do “Estado Islâmico”… O curioso é que todos estes países são amigos e aliados dos EUA, UK e França, e fazem parte da tal coligação alargada liderada pelos EUA destinada a combater o ISIS.

Agora, um membro do ISIS capturado pelos serviços secretos paquistaneses, vem dizer que recebeu financiamento procedente dos EUA http://tribune.com.pk/story/828761/startling-revelations-is-operative-confesses-to-getting-funds-via-us/...

Ou esta guerra ao “Estado Islâmico” não passa duma treta hipócrita e sangrenta ou então vivemos num hospital de loucos administrado por psicopatas?
Ou ambas coisas.

Daniel D. Dias


*Sugiro vivamente a leitura integral desta entrevista.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O esplendor da desigualdade



Os "Objetivos de Desenvolvimento do Milénio" aprovados em 2000 no âmbito da ONU por 191 países,  propunham-se até 2015

- Reduzir a pobreza extrema e a fome
- Alcançar o ensino primário universal
- Promover a igualdade de género e a autonomia das mulheres
- Reduzir a mortalidade infantil
- Melhorar a saúde materna
- Combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças
- Garantir a sustentabilidade ambiental
- Criar uma parceria mundial para o desenvolvimento

A estratégia adotada para o efeito assentava fundamentalmente na boa vontade, dos países, das instituições e das pessoas, naquilo que designou por “responsabilidade social”. Hoje, perante o manifesto fracasso dos resultados, é difícil não se ficar com a ideia de que o projeto não passou duma campanha de imagem promovida a nível mundial para camuflar o desbragado crescimento do neoliberalismo que já então decorria.

O fracasso destes "objetivos" dececionou e frustou muito boa gente que neles acreditou e pelos quais se bateu com abnegação. Hoje, quem está contente com os resultados, são somente os adeptos do darwinismo social que aguardam um tempo glorioso para se mostrarem em todo o seu esplendor: O esplendor da desigualdade.

Daniel D. Dias

http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=4349980

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Falemos de Sócrates



Há pessoas a impacientar-se por muito se falar da prisão de Sócrates. Ainda não entenderam que enterrar Sócrates - com razões válidas ou sem elas - é CRUCIAL para interiorizar a "necessidade" deste ajustamento a uma política de retrocesso e de miséria, que parece ter vindo para ficar. Esta comissão liquidatária que nos tem governado, e seus inibidos ou descarados apoiantes, precisavam desesperadamente disso. Especialmente para ganhar os muitos hesitantes que vão sendo alimentados na hipnose dos nossos “media”. Não esqueçamos o que dizia aquele senhor, muito sério, de que muitos têm saudade: em política o que parece é. O enterro de Sócrates, preparado há anos, tem o seu epílogo neste estranho caso jurídico, inédito no mundo, muito à boa maneira lusitana. Somos pioneiros, porra! A prisão de Sócrates, é pois, um feito e assim deve ser entendida. Não é de estranhar, pois, que o assunto seja muito badalado: Dá vazão aos amores e ódios de estimação, é o maior enterro de que há memória em Portugal, e... vende "jornais" como há muito não se via.

Falemos, pois, de Sócrates, carago!


Daniel D. Dias