sexta-feira, 2 de maio de 2014
Helicópteros
O desmantelamento da Jugoslávia começou em 1991, na Eslovénia, com o derrube de dois helicópteros da força aérea jugoslava pelos separatistas eslovenos que recebiam apoio e eram incentivados na sua ação pela Alemanha democrata cristã (CDU) do Chanceler Helmut Kohl. Tudo isso ocorreu apesar do compromisso formal da Comunidade Europeia e dos EUA de preservarem a unidade da República Federativa da Jugoslávia, pós Tito.
A independência da Eslovénia ocorreu pouco tempo depois deste incidente e foi prontamente reconhecida (1992) pelos EUA e CE. Inevitavelmente, como um castelo de cartas, a esta independência, seguiu-se a mais sangrenta guerra ocorrida na Europa depois da II Guerra Mundial que matou mais de 250 mil pessoas. A Jugoslávia, dos partisans, que se libertou do nazismo pelos seus próprios meios, que bateu o pé a Stalin, foi assim riscada do mapa em pouco tempo.
Ontem, 1 de maio de 2014, no leste da Ucrânia “separatistas pro Rússia” derrubaram também dois helicópteros da força aérea ucraniana. Que consequências vão ter estes atos, ainda não se sabe, mas não parece que augurem nada de bom. Porém, desta vez, a Alemanha democrata cristã, agora da Chanceler Merkel, parece não estar de acordo nem apoiar.
Conclusão: Em matéria de desmantelamento de países, para a EU e EUA, parece haver separatismos bons e separatismos maus…
Daniel D. Dias
quarta-feira, 26 de março de 2014
Tempo de impunidade, ou a problemática do “roubar pouco” e do “roubar muito”
Paula Teixeira da Cruz, a putativa ministra da Justiça do atual
governo, reafirmou recentemente, de forma categórica, que “o tempo de
impunidade acabou!” porque, garantiu, “seja quem for ninguém está acima da
lei” http://videos.sapo.pt/8CrqM9VaZ7ZriNZzUZqJ
. Ora, para quem ainda tenha dúvidas, aqui fica a confirmação do que a ministra
afirmou, como o título do Jornal de Notícias sugere: "Padeiro
condenado a pagar 315 euros por roubar 70 cêntimos" http://www.jn.pt/PaginaInicial/Seguranca/Interior.aspx?content_id=3774259.
Bem entendido, a prescrição de todas as condenações do banqueiro Jardim
Gonçalves recém confirmada pela justiça portuguesa http://www.publico.pt/economia/noticia/tribunal-da-razao-a-jardim-goncalves-e-deixa-cair-condenacao-do-bdp-1627422
– e que envolve o perdão de uma multa de
um milhão de euros - http://www.asjp.pt/2014/03/12/juizes-investigam-perdao-de-milhao-a-jardim-goncalves/
está, naturalmente, - sempre esteve - fora deste contexto “de impunidade”
referido pela ministra…
Para quem não tivesse entendido as razões deste facto aqui fica,
como achega, um excerto dum sermão do Padre António Vieira, proferido há 359
anos.
“O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com
pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
(…) os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título
são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias,
ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e
despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e
reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os
outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo
via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de
varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a
bradar: Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos.“
(In, Padre António Vieira, “Sermão do Bom Ladrão”- 1655)
Daniel D. Dias
sexta-feira, 21 de março de 2014
todas as flores são eternas
chegamos sós
mas construímos a ideia de que estamos acompanhados
graças à artimanha da natureza que nos arredonda as faces
torna graciosos os nossos gestos
nos transforma, por um tempo, em belas flores
depois, quando entardece, os ossos esquinam-se e endurecem
o brilho do olhar tomba sob nuvens de negras rugas
e as belas pétalas decaem em estranhas formas, que o vento arrasta
na penumbra, já poucos nos veem
e os que o fazem apenas tateiam a memória que sobra
da vaga ideia do que pensam termos sido
ou de eventuais vestígios que largámos pela paisagem
estamos sós,
vivemos e morremos sós:
tem um custo gozar o privilégio de apreciar
as belas flores que ajudamos a dar vida…
mas não é triste, nem alegre
é apenas assim
o fazer parte da eterna paisagem mutante
mas em cada primavera
o vulto das flores caídas, os seus remotos aromas,
animam-se nos bicos das aves, nos rebentos das velhas árvores
nos traços de cada flor...
de que podemos queixar-nos?
mesmo que não saibamos, mesmo que não demos por isso
todas as flores são eternas
Daniel D. Dias
terça-feira, 18 de março de 2014
A UE não é território ideal para qualquer utopia
Medeiros Ferreira faleceu hoje mas como se costuma dizer morre o homem e fica a obra. Não me lembro de melhor forma de homenageá-lo nesta altura, do que recordar o que suponho ser o seu último livro intitulado “Não há mapa cor-de-rosa – A história (mal)dita da integração europeia”, editado pelas Edições 70, em 2013. Este é um dos documentos mais lúcidos e esclarecedores sobre a génese da União Europeia que já tive ocasião de ler. Através dele podemos entender as razões que subjazem ao chamado projeto europeu, que teve tudo menos razões altruístas para ser implementado. Lendo livro fica claro que a UE foi um estratagema conduzido pela “direita civilizada” – a democracia (dita) cristã, apoiada pela única potência mundial que lucrou com a guerra, os EUA, para relançar a Alemanha como testa de ponte da economia ocidental. O objetivo era construir uma barreira no coração da Europa ao hipotético avanço – ou contágio - do que se entendia ser na altura o modelo socialista, algo que, em rigor ninguém sabia o que era, excepto que tinha tido a força suficiente para derrubar Hitler e ganhar a guerra.
Diz Medeiros Ferreira:
“Enquanto durou o conflito Leste-Oeste, a divisão da Alemanha e a existência de regimes de democracia de influência soviética, a Comunidade Europeia caprichou em dar respostas positivas aos desejos de desenvolvimento e de modernização dos países chamados da ‘coesão’: Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, por ordem de chegada entre 1973 e 1986. Quando acabou a noção de ‘Europa Ocidental’ e se operou a reunificação alemã, assim como o alargamento a Leste, começou a emergir o egoísmo das lógicas nacionais. Entre 1992 e 2001 passou-se num ápice da miragem da ‘Europa dos Cidadãos’ para a realidade da ‘Europa das Chancelarias’.
(…) Não há maneira de escamotear o diferente comportamento da EU antes e depois do fim da guerra fria. Mesmo a defesa e promoção dos direitos humanos no espaço de liberdade e justiça sofreu uma subalternização nítida. O facto de a EU não subscrever a Convenção Europeia dos Direitos Humanos do Conselho da Europa foi disso sintoma e prova.”
E no final, previne:
“O erro inicial foi o da fuga à vontade dos povos e ao escrutínio democrático a nível europeu. Disse-o Mendés France com clareza no Parlamento francês em Janeiro de 1957. O chamado ‘método Jean Monnet’ acabaria por criar um hiato entre a Europa dos oligarcas e dos burocratas e a Europa dos Cidadãos para surgir agora a Europa das Chancelarias. Ora, a Europa das Chancelarias não é um passo em frente em relação à história do continente. Nem na sua forma de eixo, ou directório, e muito menos sob qualquer conduta unilateral. Sendo certo que a UE não é território ideal para qualquer utopia.”
“Não há mapa cor-de-rosa – A história (mal)dita da integração europeia”, de José Medeiros Ferreira, esclarece muitos pontos obscuros desta UE que atravessa uma fase crítica da sua existência. Para conhecer melhor a Europa e compreender a atual crise mas também como forma de homenagear o político e pensador Medeiros Ferreira, sugiro a leitura urgente deste livro.
Daniel D. Dias
quarta-feira, 12 de março de 2014
Consensos
Cavaco fala da necessidade de um consenso para vencer a crise http://www.publico.pt/politica/noticia/pr-insiste-nas-vantagens-de-um-entendimento-politico-para-o-postroika-1627777
e agora, inesperadamente, como diz Bagão Felix, aí surge um http://expresso.sapo.pt/manifesto-de-70-personalidades-apela-a-reestruturacao-da-divida=f860221. E é um consenso a sério, transversal, como há
muito não se via na sociedade portuguesa. Cavaco vai ficar contente? Claro que
não, pois não é este tipo de consenso a que Cavaco chama “consenso”. Cavaco (economista)
tem a mesma visão que Salazar (economista) tinha para Portugal. Um Portugal,
pobre, rústico, (Cavaco elogia o regresso aos campos…), bem comportado, de
boina na mão. Um Portugal de “consensos” obtidos em câmaras corporativas onde, se
necessário à força, se “harmonizam” os interesses dos ricos e dos pobres.
Ou muito me engano ou Cavaco irá contestar este consenso por achá-lo
"inoportuno", como lhe chamou o Gelatina Estridente, por exemplo, ou argumentando
com uma qualquer roteirisse daquelas a que já nos habituou. Ou então, pura e
simplesmente, vai ignorá-lo. Este tipo de consensos é algo muito pouco
agradável para Cavaco. É que fica completamente à vista que o verdadeiro chefe
deste (des)governo, não é o gauleiter Passos, mas o próprio Cavaco.
Daniel D. Dias
segunda-feira, 10 de março de 2014
Ucrânia
A ideia de que na Ucrânia se combate pela liberdade contra a opressão já era suspeita à partida, quando começaram as concentrações em Kiev. Era no mínimo estranho que toda a direita e extrema-direita europeias fizessem um coro unânime e histérico, laudatório dos manifestantes e condenatório dos corruptos oligarcas ucranianos. É bom que se assinale, que esses oligarcas, cavalheiros de indústria, verdadeiros criminosos que enriqueceram com o desmantelamento do antigo Bloco de Leste, têm o seu dinheirinho bem guardado na EU e nos EUA, onde dispõem de tratamento VIP. Personagens como Barroso, Hollande, Angela Merkel, Cameron, McCain, Obama, Rasmussen, Catherine Ashton, Donald Tusk, Rajoy, só para citar alguns, aliados e coniventes em recentes ingerências (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Síria, por exemplo), que outro sinal poderiam dar que não fosse o de estarem a apoiar algo muito duvidoso?
Mas o aparato dos “media”, a manipulação da informação, os agentes e comentadores de serviço que dominam o “status quo” na EU e EUA – citados permanentemente como “comunidade internacional!” -, fizeram crer a muito boa gente que se tratava duma verdadeira revolução, pela liberdade, contra o opressor russo.
A procissão ainda vai no adro mas já há indícios claros de que está muito mais em jogo do que a luta de um povo pela sua independência e liberdade. O que à partida parece estar a acontecer é o aproveitamento de descontentamento legítimo dum povo para relançar os avanços geoestratégicos a leste há muito pretendidos pela OTAN – a única organização militar que sobreviveu à Guerra Fria e que não para de expandir-se (onde lá vai o Atlântico Norte). Não deixa de ser curioso que resquícios dessa Guerra Fria estejam agora a ser ressuscitados para defender ou para atacar a Rússia… como se da União Soviética se tratasse.
O artigo de Daniel Oliveira publicado no Expresso online de hoje (10/03/14) http://expresso.sapo.pt/apresento-vos-os-defensores-dos-valores-europeus-na-ucrania=f860020 dá um contributo importante para entender o imbróglio em que esta União Europeia nos está a meter a todos. De igual modo o Jornal I, também de hoje, http://www.ionline.pt/artigos/mundo/kiev-acusada-contratar-mercenrios-da-blackwater revela que mercenários duma famosa empresa de segurança, sediada nos EUA, foram e continuam a ser utilizados para intervir na Ucrânia.
As coisas raramente são o que parecem e quase nunca são tão simples. Mas uma coisa é certa: a UE, que ainda está mergulhada numa crise, embarcou em mais uma aventura de desfecho imprevisível.
Daniel D. Dias
Nota: Sobre a empresa de segurança citada – Blackwater, agora também chamada Academi -, vide http://blackwaterprotection.com/ , http://www.motherjones.com/mojo/2009/08/blackwater-too-big-fail, http://academi.com/, http://narcosphere.narconews.com/notebook/erin-rosa/2010/08/blackwater-provided-unauthorized-training-colombia
sexta-feira, 7 de março de 2014
Cão de Pavlov
A maioria das pessoas acantona-se nas suas ideias e rejeita as dos
outros a não ser que esteja previamente disponível para concordar com elas. É
por isso que é tão pouco produtivo, tão dececionante, gastar tempo a esgrimir
argumentos. As pessoas estão tão carentes, tão desejosas de atenção, que não
procuram esclarecimento. Procuram companhia, esmolam compreensão. Paradoxalmente
estamos a tornar-nos profundamente ignorantes e mais manipuláveis do que nunca graças
aos avanços da ciência e da tecnologia que compramos e promovemos
entusiasticamente. Tornámo-nos mercadorias e somos objetos de marketing com o
qual voluntariamente colaboramos, mesmo sabendo que somos usados. Que importa?
O que é preciso é que não fiquemos sozinhos, que em alguma parte do universo
alguém nos dê razão… O cão de Pavlov pode continuar a salivar e uivar de dor,
mas quem está condicionado é afinal o próprio Pavlov.
Daniel D. Dias
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